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  Título
O filme-dispositivo enquanto pesquisa experimental em artes
Autor
Thalita Gonçalves da Rocha
Resumo Expandido
O objetivo do painel proposto é apresentar reflexões que fazem parte de um projeto de pesquisa experimental em arte, que tem por objetivos a criação de um filme-dispositivo, assim como uma análise de seu processo. Este experimento, como um todo, será baseado na análise de três filmes-dispositivos já existentes-Moscou (2009), O ato de matar (2012) e Rua de mão dupla (2002)- e terá como foco as questões de linguagem e discursos inerentes a enunciação presente nos produtos finais, isto é, nos filmes após a montagem.

Pretendemos estabelecer uma relação entre a pesquisa experimental em arte (BAKER, 2014; BENNET, 2012) e a criação de filmes-dispositivos, delineando suas características principais e debatendo se a realização do segundo, observando algumas questões de procedimentos, pode ser equiparada metodologicamente ao processo da primeira. Colocando assim, a produção de filmes-dispositivos, em diálogo com o universo das metodologias de pesquisa científica.

Tendo justificado e localizado nosso experimento, delimitamos nele o que pretendemos observar: a enunciação nos filme-dispositivos.

Para tal, definimos os filmes-dispositivos como aqueles que abandonam uma “colocação em cena” (mise-en-scène) a partir (de um olhar sobre a) da realidade (OLIVEIRA Jr., 2013) para organizarem seu arranjo técnico, formado por um “conjunto de protocolos e parâmetros formais” (BRASIL, 2013, p. 15) e “procedimentos de filmagem” (LINS, 2004, p. 12) a fim de captarem o real e se fazerem “sob o risco” dele (COMOLLI, 2001).

Abordamos a enunciação nesses filmes, primeiro no que tange a sua linguagem. Discorrendo, por exemplo, sobre a questão da linguagem cinematográfica e seus processos de origem técnica como influentes nas produções discursivas. Assunto que discutimos atualizando partes do pensamento de Jean-Louis Baudry (1983).

Além dos processos da linguagem, a inserção desses filmes e seus participantes em dispositivos sociais mais abrangentes também deve ser considerado nas análises de suas enunciações, pois esta lhes garante serem perpassados por um fluxo de discursos. Para este tema convocamos Jacques Rancière (2005), apresentando seu pensamento sobre Estética e Arte em suas relações com a comunidade e a política, em sintonia com as proposições sobre os dispositivos sociais de Michel Foucault, principalmente as encontradas na trilogia “A história da sexualidade” .

Para esse excerto, levamos nosso corpo teórico para “um embate” com o documentário Rua de mão dupla (2002), de Cao Guimarães, um filme-dispositivo brasileiro considerado exemplar na literatura especializada (LINS,2009; MIGLIORIN, 2005; FREITAS, 2007), com o intuito de acrescentar questões relativas a sua enunciação nos debates já realizados.

“Apontar novos caminhos” (BAKER, 2014) através de experimentos é o principal objetivo de uma pesquisa experimental em arte. Acreditamos que a compreensão de como esses processos de linguagem e o atravessamento de discursos influenciam nas construções enunciativas desses filmes possa trazer consideráveis contribuições.
Bibliografia

BAKER, Tim. Experimental research in the digital media arts. In: CHAN ,Janet; THOMAS Kerry. Handbook of Research on Creativity. Cheltenham. Reino Unido: Edward Elgar Publishing, 2014, pp. 282-296.

BENNETT, Jill. What Is Experimental Art? Studies in material thinking. vol.08. Maio de 2012, pp 01-05.

COMOLLI, Jean-Louis. Sob o risco do real. Publicado originalmente no site www.diplomatie.gouv.fr Traduzido (por Paulo Maia e Ruben Caixeta de Queiroz) e publicado no catálogo do forumdoc.bh.2001.

CHAVES, Fernanda Silva. Jogos estoicos e jogos documentais: a construção do ethé no documentário Rua de mão dupla. 2013. 154f. Dissertação (Mestrado em Letras)- Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerias, 2013.

FREITAS, Felipe Alves de. O homem ordinário com a câmera. 2007.113f. Dissertação (Mestrado em filosofia). Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais, 2007.

LINS, Consuelo. O documentário de Eduardo Coutinho: televisão, cinema e vídeo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.