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  Título
Guerra nas telas: o widescreen chega a São Paulo (1959-60)
Autor
João Luiz Vieira
Resumo Expandido
Seguindo a linha do Seminário Temático por nós aqui proposto, a comunicação aborda um aspecto especial de um projeto de pesquisa em andamento que investiga a chegada dos sistemas widescreen no Brasil a partir do ponto de vista da recepção, ou seja, abordando alguns pressupostos teóricos e aspectos técnicos, econômicos e estéticos que envolvem a relação do espectador com a plateia e com o filme nos diferentes espaços de exibição.
Trata-se de nova área de investigação teórica dos Estudos Cinematográficos, a qual denominamos “Histórias de Cinemas.” O ponto de partida afirma a descontinuidade e defasagem histórica experimentadas no Brasil e também ocorridas em outros contextos nacionais com respeito às tecnologias de projeção em telas panorâmicas. Ou seja, quando aqui chegaram dois pioneiros sistemas, Cinerama (1952) e Todd-AO (1954)—o primeiro aqui desembarcado no segundo semestre de 1959 e o segundo em 1960—a tão proclamada novidade já havia sido relativizada pelo contato anterior com o CinemaScope, então presente na maioria dos cinemas brasileiros desde 1954. Ainda assim, aqueles dois sistemas de realismo imersivo inéditos, na combinação de uma imagem gigantesca projetada em telas de considerável curvatura, disputaram em seu lançamento a primazia anacrônica de, cada um a seu modo, seduzir espectadores que começavam a migrar para a televisão, então ganhando protagonismo e popularidade como meio de consumo audiovisual de massa. O Cinerama tem sua primeira apresentação em 14 de agosto de 1959, inaugurando o Cine Comodoro, em São Paulo, com pompa e circunstância e projetando o seu primeiro travelogue, “Isto é Cinerama. O Todd-AO, sete meses depois, abre o elegante Cine Astor em 9 de março de 1960, com o musical “No sul do Pacífico”. Durante os primeiros meses de lançamento dos referidos filmes, testemunhamos uma verdadeira guerra competitiva entre as duas salas, cada qual tentando convencer os espectadores da originalidade e, especialmente, qualidade e superioridade de tecnologia de filmagem e projeção, ambas identificadas. Estas eram alardadas como marcas do progresso da cidade. Aqui serão discutidos elementos como a configuração institucionalizada da posição da tela, espectadores, projetor e projecionista; as dimensões das telas; a arquitetura interna e externa das salas; a iluminação e climatização dos interiores; as diferenças no tratamento das fachadas dos cinemas (o Comodoro enquanto cinema de rua e o Astor como espaço de galeria) e, na disputa pelos espectadores, a relação com a publicidade e as estratégias de venda e convencimento empregados, com destaque para a mídia impressa. Paralelamente, numa leitura intertextual e transmidiática, também serão tratadas a inserção e competição com a televisão como veículo de contato com imagens e sons em movimento para além do cinema, ressignificando a sala de cinema como emblema de uma experiência única de fruição audiovisual na segunda metade dos anos 1950 e até meados da década seguinte. Ênfase será dada às constantes mudanças no estatuto da espectatorialidade e às novas exigências de percepção sensorial e agenciamento do indivíduo no quadro de uma então nova cultura das telas (screen cultures).
Bibliografia


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http://salasdecinemadesp.blogspot.com.br/