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  Título
(Des)Caminhos na realidade: subjetividade e espaço coletivo
Autor
Raul Lemos Arthuso
Resumo Expandido
Na virada da primeira para a segunda década do século XXI, ganhou destaque dentro do cinema brasileiro uma produção independente, trazendo novos elementos ao panorama contemporâneo. Denominado de forma apressada "novíssimo cinema brasileiro", filmes como Sábado à Noite, Estrada para Ythaca, Notas Flanantes, A Fuga da Mulher Gorila, A Falta que Me Faz, Riscado e Os Residentes são regidos pela lógica dos coletivos, “importada”, por sua vez, das artes plásticas, onde um conjunto de artistas trabalham juntos produzindo, ao mesmo tempo, sua obra e a de seus colegas, numa conjunção de interesses artísticos e afetivos que relega a segundo plano as questões econômicas imediatas. Essa lógica de produção, aliada a seus baixíssimos orçamentos, mereceu atenção de Cezar Migliorin, que dera o nome de "cinema pós-industrial" ao conjunto da produção independente que despontava nos grandes festivais brasileiros na virada da década.



Para além das questões do modo de produção, é possível identificar algumas caraterísticas de estilo comuns a vários filmes: a precariedade como propulsor estético; a relação forte com o digital como uma alternativa para um cinema grande e pesado; o elogio do grupo e da amizade; a política dos afetos; e, especialmente, o cinema em primeira pessoa. Se a história o cinema brasileiro moderno é marcada por uma dialética entre a voz do cineasta/intelectual e a voz do outro, a produção contemporânea independente inverte radicalmente essa lógica: os filmes vão formular questões subjetivas, particulares, refletindo anseios e preocupações dos autores ligadas, essencialmente, ao lugar do artista na sociedade, no mundo e o significado de sua existência numa sociedade passando por profundas transformações.



É essa relação que o presente trabalho pretende abordar, propondo um olhar crítico para os filmes Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo, Notas Flanantes, de Clarissa Campolina, e Ainda Orangotangos, Gustavo Spolidoro, entendendo, pela análise estética das obras, como suas estratégias apresentam procedimentos do chamado “novíssimo cinema brasileiro”, tornados constantes na produção brasileira contemporânea; e levantando questionamentos sobre a relação do cinema brasileiro independente no quadro das transformações sociais ocorridas no país ao longo dos anos 2000.



Muitas abordagens de críticos e resenhistas trataram de condenar as relações dos filmes da nova geração com a comunidade, como se os filmes estivessem isolados de questões políticas e sociais do país, fechando-se no que se convencionou chamar de “estética do afeto”. Nos três filmes analisados, existe um forte desejo de relação com a realidade: Sábado à Noite é calcado em um dispositivo que busca o encontro entre o realizador e os anônimos da cidade de Fortaleza durante uma noite de sábado, transitando pelos espaços da cidade à procura do outro; Notas Flanantes parte de um desejo da narradora de conhecer a cidade onde vive, numa espécie de cartografia fílmico-afetiva de Belo Horizonte; por sua vez, Ainda Orangotangos constrói num único plano-sequência uma ficção que percorre espaços e se detém sobre figuras típicas da cidade de Porto Alegre na tentativa de compor um retrato da vida da capital gaúcha.



Assim, os três filmes trazem uma tensão entre a subjetividade do autor e o espaço da realidade captado pela câmera e tornado obra artística. Isso se traduz no comportamento da câmera, nas escolhas de montagem e trabalho sonoro que manifestam um narrador diferente em cada filme. O presente trabalho visa, a partir da análise crítica dos três filmes, a abrir um questionamento: que mundo a tensão entre subjetividade do autor e a realidade filmada, expressa na instância narrativa, revela? Como isso manifesta, pela brechas, um país em intensa transformação social ao longo da última década?
Bibliografia

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