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  Título
Ensaios, interações e imersões epistémicas no documentário complexo.
Autor
Alberto Greciano Merino
Resumo Expandido
O documentário "clássico" surge sustentado pelas noções do positivismo naturalista que se destila no século XIX. A partir de uma concepção empírica da realidade, a imagem se apresenta como uma representação analógica que através da transparência conceitual propõe uma exposição verídica de fatos reais e concretos. No entanto, esse tipo de exposição não parece estar preparado para entender a complexidade do real que nos sobrevém na realidade. Català (2016) indica que através da forma ensaio se foi produzindo uma série de giros que, questionando o status do dispositivo cinematográfico, situaram o documentário em uma disposição performativa que tem a capacidade de se inventar a si mesmo e, ao mesmo tempo, de criar seus próprios territórios.

Nessa nova disposição do documentário, o sujeito passa a adquirir o status da discussão e a verdade se converte numa reflexão sobre a realidade, um pensar sobre as coisas para desmascará-las, porém sem a necessidade de chegar a uma conclusão verdadeira. Portanto, a necessidade de uma narrativa estrita se dilui e dá passo a uma expressão estética que, além de recolher o fluxo profundo da experimentação artística de vanguarda, é capaz de canalizar adequadamente as formas complexas do real. Da mesma forma, a representação abandona o mimetismo da conexão direta com a realidade ótica e passa a construir a realidade através de uma série de emoções que despertam um tipo de pensamento complexo (MORIN, 2007). Esses dobras compõem a substância do documentário contemporâneo e sua operabilidade tem a ver com o advento da manipulação de dados massivos (big data), com a opacidade de uma imagem digital que constrói as imagens da realidade com e a partir de imagens, e finalmente com o exercício alegórico (BENJAMIN, 1990) que supõe transformar as coisas em idéias, isto é, com a capacidade de representar ou materializar idéias através do documentário.

Català aponta que as ferramentas tecnológicas da imagem digital trazem consigo uma série de avanços estruturais e expositivos que incorporam uma capacidade retórica à imagem (CATALÀ, 2005, 2010). Ou seja, a operabilidade do espaço visual por meio de imagens, além de articular uma antologia de elementos para expor conceitos e memórias, também manifesta os movimentos emocionais que os relacionam. Desenvolve-se assim um sistema de realismo que se situa no âmbito da pós-verdade, já que permite acessar o reverso epistémico do fato proposto pelo realismo fotográfico. Assim, quando nos deslocamos visualmente pelos elementos multimídia de um documentário hipertextual, surge uma configuração que remete a um mapa mental, pois através da percepção e ação que proporciona o discorrer por e com essa tecnologia, articula-se um modo de pensamento rizomático que fomenta um nível de conhecimento útil para lidar com essa realidade complexa. Estamos, portanto, diante de uma forma de representação que, seguindo o princípio do atlas warburgiano, ensambla uma "forma visual do saber ou forma douta do ver" (DIDI-HUBERMAN, 2010, p. 15).



Em síntese, a nova configuração que adota o documentário através da interatividade, do 3D, da realidade virtual e dos hologramas desdobra um espaço metafórico esférico que implica uma estética política (RANCIÈRE, 2005). Essa disposição propõe um tipo de enunciação que consiste em recompor uma geografia da realidade através de processos de pensamento que levam em conta a diversidade de condicionantes que albergam os fatos. Pois nesses documentários se ativa um espaço Interfaz onde se conjuntam o usuário e o planejamento da máquina através de uma imagem fluida que irrompe como uma condensação material entre realidade (sociedade) e imaginário (pensamento). Por isso, através das imagens imersivas e da criação de situações atmosféricas, a expansão dos documentários propõe uma ecologia dos ambientes útil para atender e avivar a configuração e desenvolvimento do novo paradigma planetário.
Bibliografia

CATALÀ, J M. La imagen compleja. Bellaterra: Servei de publicacions Universitat Autónoma de Barcelona, 2005, 749 p.



CATALÀ, J M. La imagen interfaz. Bilbao: Servicio Editorial de la Universidad del País Vasco, 2010, 392 p.



CATALÀ, J M. Documental expandido. Estética del pensamiento complejo. Barcelona: Master en teoría y práctica del documental creativo de la Universidad Autónoma de Barcelona (UAB), 2016.

Disponivel em: https://vimeo.com/uabmasterdoc



GIFREU, Arnau. El documental interactivo como nuevo género audiovisual. 2013, 698 f. Tese (Doutorado em Comunicação) Campus de la Comunicação, Universidade Pompeu Fabra de Barcelona.



NASH, Kate; HIGH, Craig; SUMMERHAYES, Catherine (Ed). New documentary ecologies: emerging platforms, practices and discourses. London: Palgrave Macmillan, 2014, 254 p.



SUCARI, Jacobo. El documental expandido: pantalla y espacio. 2009, 275 f. Tese (Doutorado em Art, territori y cultura dels media) - Facultad de Bellas Artes, Universidad de Barcelona.