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  Título
Imaginação e Realidade: O País de São Saruê e O Fabliaux de Cocagne
Autor
Mauricio Monteiro
Resumo Expandido
No século XIII, na Alta Idade Media europeia, um grupo de clerigos errantes, autodenominados goliardos, escreveu uma série de poemas e canções de temáticas variadas, predominatemente de contestação da ordem estamental e moral. Essa série de poemas foram classificados no que se denominou de codex burana, ou ainda carmina burana. Entretanto, mesmo com as menções a remeter para a Baviera, os manuscritos denominados como Carmina Burana reúnem poemas e canções de uma geografia mais extensa da Europa medieval, a alcançar as regiões da Occitânia, França, Inglaterra, Escócia, Aragão, Castela e do Sacro Império. Tratava-se, consequentemente, de um movimento de contestação da ordem estamental e moral da Idade Média e do desejo da abundância, da fartura e da vida tranquila. Havia ainda um princípio que era o de contrapor o temporal e o espiritual. Dentre os poemas desses goliardos, o chamado Fabliaux de Cocagne é particularmente instigante, pois discorre sobre um lugar imaginário, onde tudo que existe e para a felicidade dos homens.

Nos séculos XII e XIII desenvolveu-se na Europa uma atividade lítero-musical muito forte, presente nos trovadores Catalães, Galego-portugueses, nos Trovatori italianos, nos Minnesänger e nos Meistersäng onde hoje é a Alemanha. No espaço geográfico que hoje forma a França, as atividades dos Troubadours e dos Trouvères deixaram ao Ocidente o testemunho de uma lírica e de uma musicalidade típica, resultado de uma sociedade que sabia da necessidade dos monstros, das vitórias do demônio e do juízo de Deus. Afinal, as sociedades só criam códigos que elas mesmas podem decodificar e, por isso mesmo, veneraram a um deus único através de suas poesias e de suas músicas, para que ele, na benevolência que lhe foi atribuída, combatesse, em nome dos homens, os demônios, os monstros, as almas, as bruxas, os hereges, os bárbaros e tudo mais que atormentasse a vida medieval.

Nos séculos seguintes foram encontrados poemas similares em varios países da Europa, entretanto, o que mais se assemelha ao original da Idade Media, foi encontado em Campina Grande, no nordeste Brasileiro, com data de 1929. Aqui nesses trópicos, tomou o nome de A Viagem ao Pais de São Saruê, de autoria de Manuel Camilo dos Santos. Com os mesmo teores do original, o poema de Manuel Camilo dos Santos criou uma realidade desejada em uma regiao esquecida e abandonada pelos poderes publicos, constantemente assolada pela miséria e pela seca. Essa foi a inspiracao de Vladimir de Carvalho que, ao contrário da fartura desejada tanto no poema europeu quanto no brasileiro, retratou o sofrimento e o isolamento do povo nordestino. Lancado em 1971, foi censurado pela ditadura militar e condenado ao silencio, tanto no Brasil quanto no exterior. Asssim como o poema original, o filme trata da relacao do homem com a terra em uma oposicao entre os dias de reconstrucao e os momentos de penuria, a mais real e constante situacao do nordestino. Entretanto, entram nesse mundo de dor e sobrevivência outros fatores de juizo de um homem sobre o outro, tais como o patriarcalismo e o colonialismo. Essa é a vertente do filme de Vladimir de Carvalho, uma demonstração da realidade oposta ao que Hilario Franco Junior chamou de “imaginario da perfeição social”.

Além dos poemas e depoimentos rechedos de realidade e dor, a sonoridades remontam a um nordeste que ainda preservava características medievais, como a música modal, predominatemente mixolídia. Nesse aspecto, não seria exagero comparar os cordelistas, poetas e violeiros aos trovadores europeus, sobretudo, aos da Península Ibérica, cujo legado cultural estabeleceu-se no processo de exploração e ocupação da primeira região brasileira a manter contatos com os europeus. Essas caracterisiticas todas podem ser observadas no filme de Vladimir de Carvalho; na música, particularmente, os sons do sertão vêm do pernabucano Luiz Gonzaga, dos paraibanos José Siqueira e Marcus Vinicius, e do carioca Ernesto Nazareth.
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