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  Título
A Cidade é uma Só?: A montagem cinematográfica partir do conflito
Autor
Hector Rocha Isaias
Resumo Expandido
O filme “A Cidade é uma Só?” desenvolve um enredo épico inicialmente a partir do resgate e ficcionalização de arquivos da Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), mobilização orquestrada pelo Governo Federal no início da década de 70 com o intuito de expulsar e realocar moradores dos arredores da Capital Federal, formando as atuais cidades satélites. É no contexto da Ceilândia, cidade que traz em seu nome a marca da antiga campanha do Estado, que se articulam e saem do anonimato os principais personagens do filme. Dildu cruza atônito as duas esferas de organização social: a formal e a informal. É faxineiro no Plano Piloto e político independente que decide se candidatar a deputado distrital, contando com um ex-rapper como marqueteiro.



Logo nos créditos iniciais, sobre a planta do eixo monumental de Brasília desenhada por Lúcio Costa, surge um “X“ e sobre ele a indagação que é título e chave de todo o desenvolvimento do filme: A cidade é uma Só? Partimos do pressuposto que a sucessão de planos apresentados pelo filme são justapostos com a intenção de criar conflito e colisões que possibilitem a ressignificação das narrativas oficiais e o empoderamento dos personagens.



Sergei Eisenstein, grande teórico da montagem cinematográfica, insiste que a arte só pode ser a expressão de contradições. Para ele o plano não é um elemento da montagem, mas uma célula da montagem. Exatamente como as células, em sua divisão, formam um fenômeno de outra ordem, que é o organismo ou embrião, do mesmo modo no outro lado da transição dialética de um plano há a montagem. "O que então caracteriza a montagem e, consequentemete, sua célula – o plano? A colisão. O conflito de duas peças em oposição entre si. O conflito. A colisão.“ (Eisenstein, 2002 p.55). O teórico reitera a idéia do cinema intelectual: um processo em que a associação de planos forma um conceito, que não está na imagem, mas na cabeça do espectador. O cinema associa elementos díspares para formar um terceiro, que pode ser uma sensação ou um conceito. Esta é a operação que supomos ser constantemente utilizada no filme em análise. Para responder a esta hipótese, escolhemos uma cena que parece ser emblemática.



Dildu rompe com o cotidiano de uma família na Ceilândia adentrando um quintal de sua casa e desenvolvendo com destreza sua campanha. A situação é de improviso e aparecem, sem constrangimento, o diretor e o operador de som. Os moradores escutam atentos sua fala. Bordado na camisa verde, um x em vermelho chama atenção. Sobre o mesmo, o candidato explica: “A idéia do “X” é ... é a idéia que a gente ressignificou tudo que já rolou de ruim no passado. A gente pega a nossa história e vê como é isso para nós, o que significou o “X”.



Enquanto fala e reconstrói com as mãos as formas engenhosas da arquitetura a imagem da cidade planejada organiza-se como um plano cinematográfico em paralelo no imaginário dos espectadores. De repente, essa construção imagética é interrompida por um outro plano, a partir de uma câmera subjetiva dentro de um carro, a luz dos faróis dão a ver uma estrada de terra batida numa área periférica precarizada em contraste visceral com as imagens construídas anteriormente na fala de Dildu.



A montagem reforça a incongruência desses dois lugares e causa uma resposta puramente intelectual por parte do espectador. Mesmo que apenas sugerida pela fala de Dildu, a imagem da cidade formal rompida pelo vazio empoeirado da periferia esquecida promove um certo apagamento da primeira, ou pelo menos, o confronto entre realidades distintas. Essa operação de negação e revisão histórica constantemente aplicada na narrativa é utilizada para mobilizar o espectador, como justifica Eisenstein, “Por que a arte é sempre conflito. (…) é tarefa da arte tornar manifestas as contradições do Ser. Formar visões justas despertando contradições na mente do espectador, e forjar conceitos intelectuais acurados a partir do choque dinâmico de paixões apostas.” (Eisenstein, 2002 p.50)
Bibliografia

ALBERA, François. Eisenstein e o construtivismo russo: a dramaturgia da forma em 'Stuttgart' (1929). São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

EISENSTEIN, Sergei. A forma do filme, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2002.

EISENSTEIN, Sergei. O sentido do filme, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 1990.

SILVA, M.D.J. A cidade é uma só?: autoficcionalização, interrogação do arquivo e sentido de dissenso. In Texto (UFRGS. Online), v. 1, p. 76-89, 2015.