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  Título
Narrativas Imaginárias da Pós-Produção Cinematográfica
Autor
Mauricio Gomes da Silva Fonteles
Resumo Expandido
A pós-produção cinematográfica é um processo construtivo que, hoje consolidado no meio digital inerente às novas mídias, se tornou uma etapa essencial na realização dos filmes. Diante da consolidação do cinema em meio digital em todo o seu processo produtivo (da filmagem à projeção), o que enxergamos é uma transformação nos modos construir narrativas, reflexo direto da cultura hipermoderna em que o cinema se insere. Hoje, é simples filmar, editar e publicar em poucos cliques, situação inimaginável aos realizadores de cinema de algumas décadas atrás. A pós-produção aparece como um elo entre os diferentes meios de criação e recepção do cinema, conectando universos distintos de produção. Com essa pesquisa, buscamos compreender e elencar o estado da arte da pós-produção para desvendarmos os efeitos e modificações na realização cinematográfica em diferentes escalas, partindo do topo da cadeia no cinema de Hollywood e chegando no universo da produção independente, vertente que se relaciona mais diretamente com a realidade do cinema nacional.

Nos interessa a pós-produção em sua vertente cinematográfica e audiovisual. Podemos descrever a pós-produção como uma etapa do processo de realização audiovisual, no qual o material filmado e/ou editado passa por modificações que podem envolver o tratamento de imagens e sons, a composição de imagens e sons, a inserção ou exclusão de elementos gráficos e sonoros. Além disso, acreditamos na quebra do paradigma de uma etapa técnica como costuma ser caracterizada, para expansão das potencialidades narrativas que a pós-produção gera. Para sermos mais claros podemos elencar algumas das partes desse processo: correção de cor, edição de som, mixagem de som, composição de trilha musical, composição de imagens em computação gráfica, criação de cenários virtuais, animação de personagens, eliminação de elementos de cena e a própria legendagem ou dublagem. Também estão envolvidos nesse universo as tecnologias utilizadas em salas de cinema como a projeção em 3D estereoscópico, os sistemas de sonorização em multicanal e até mesmo aparatos interativos como cadeiras em movimento e sistemas de aromas e controle de temperatura da sala para imersão nos filmes.

Nosso recorte tem início no momento em que o cinema encontra as novas mídias, a tecnologia digital e computacional, como uma ferramenta para realização e veiculação de suas histórias. Ao ponto que as novas mídias influenciam a produção cinematográfica e o cinema influencia o desenvolvimento dessas mídias, sempre buscando dar um passo à frente com novas possibilidades e novas construções narrativas.

Elencamos a pós-produção como um símbolo da consolidação do cinema no meio digital. O processo se desenvolveu com a montagem, captação e edição de som, imagens sintéticas (2D e 3D), pintura digital, composição de imagens, correção de cor (color grading), a filmagem com câmeras digitais e finalmente a projeção. Não foram só esses elementos os afetados pela imersão do cinema no digital, mas esses são capazes de formar uma teia com diversos desdobramentos. A pós-produção está no centro de tudo isso, e outro fator que chama atenção é o fato de que todas as etapas desse processo estão cada vez mais acessíveis.

Poderíamos nos ater a uma etapa específica como edição de som ou correção de cor, porém, nos interessa compreender a pós-produção enquanto um processo, um bloco, hoje indispensável no universo fílmico. Acreditamos que, no contexto atual, não há mais cinema sem pós-produção. A primeira questão que gostaríamos de levantar é: a partir de que momento a pós-produção deixa de ser uma etapa do processo de realização cinematográfica e ganha a possibilidade de se tornar o processo em si?

No artigo, nos debruçaremos sobre a análise de três filmes nacionais marcados visualmente e sonoramente pelos seus processos de pós-produção: Dois Coelhos (2012), O Menino e O Mundo (2013) e Zoom (2015).
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