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  Título
O diálogo crítico de Glauber Rocha e Walter da Silveira
Autor
Claudio Gonçalves da Costa Leal
Resumo Expandido
Nas suas críticas, Glauber Rocha põe uma tríade de intelectuais no centro do pensamento do cinema brasileiro moderno. A frequência de Alex Viany, Paulo Emílio Salles Gomes e Walter da Silveira, em seus artigos, não se perde no sabor retórico. Há estratégia e meditação na escolha dos interlocutores. A esse primeiro raio de influência, o cineasta baiano agregava ainda os críticos Cyro Siqueira, Salvyano Cavalcanti de Paiva e José Lino Grunewald. Mas, sob diferentes alegações, insistia na centralidade de Viany, Salles Gomes e Silveira na abertura de caminhos teóricos para a geração do Cinema Novo. “Fizemos uma aliança teórica com a Cinemateca Brasileira e uma aliança política com Alex Viany e Walter da Silveira. O cinema novo teorizava, mas logo estava preparado para a prática”, avaliou Glauber no livro Revolução do Cinema Novo (1981).



Dentre os três críticos, Walter da Silveira tem uma trajetória menos explorada, confinada à gênese de uma mentalidade cinematográfica em Salvador, embora suas contribuições extrapolem o Clube de Cinema da Bahia, espaço decisivo para a formação do jovem Glauber. Iniciado em meados da década de 50, esse diálogo crítico aconteceu sobretudo nos jornais, encerrando-se somente com a morte de Walter da Silveira, em 1970. Este trabalho procura reconstituir essa interlocução e sua influência no amadurecimento teórico do cineasta Glauber.



Na cidade do Salvador dos anos 50, a cinefilia imantava os jornais e impunha-se sobre os espaços sagrados das artes plásticas e da literatura. Tornava-se um campo de mediação das visões de mundo em choque. O neo-realismo italiano, a redescoberta de Hollywood via Cahiers du Cinéma e a erupção da Nouvelle Vague armavam as paixões críticas. No fenômeno cinéfilo baiano, Walter da Silveira e Glauber Rocha assumem papeis centrais mas diversos. Walter, o formador, Glauber, o crítico-realizador, ambos frequentemente em colisão. Influenciado pelos modelos críticos de Georges Sadoul e André Bazin e marcado pela militância comunista, da qual se distanciaria na segunda metade dos anos 50, Walter não deixará de examinar a natureza dos artigos do discípulo: “injustos quase sempre, continuadamente sinceros, porém”.



No gabinete do mestre, Glauber conheceu os primeiros exemplares dos Cahiers du Cinéma da fase amarela. No cineclube, encontrou-se com as referências fílmicas e teóricas que reverberariam em seu programa estético. O confronto entre Revisão crítica do cinema brasileiro, de Glauber, e dois artigos escritos em 1962 por Walter da Silveira (“Raízes do Cinema Novo” e “Cinema Novo”) oferece um retrato das distâncias e proximidades. Enquanto Glauber e uma parte representativa dos realizadores de sua geração retornam à importância de Humberto Mauro, Walter da Silveira destaca Nelson Pereira dos Santos. Esses confrontos teóricos ocorreram no momento em que Glauber saltava da cinefilia para a definição de um ideário no cinema.
Bibliografia

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