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  Título
A convergência de imagem e som no videoclipe digital
Autor
Claudio Henrique Brant Campos
Resumo Expandido
Este artigo pretende abordar a convergência de imagem e som no videoclipe feito em ambiente computacional, para perceber modos de criação audiovisual em que som e imagem têm a mesma ‘fonte’: a sequenciação de dados. A partir desta primeira convergência, já intrínseca aos modos de produção deste gênero audiovisual, argumenta-se como imagem e som convergem também para um encontro mútuo em torno do ritmo saturado de pulsos e de quadros imagéticos. As imagens se tornam pulsantes. Tornam-se música, podendo adquirir uma forma de apresentação que Machado (2000) chama uma estrutura motovisual. Este fenômeno da transformação de imagens em tempo musical é saudado por variados autores, como Santaella&Noth (2008), Plessner (1977) e Sodré (2002).



Pretende-se fazer uma análise de um exemplo audiovisual disponível na internet, na autoria de um VJ (videojockey), profissional praticante do VJing. Nessa análise, pretende-se observar como o gênero audiovisual do VJing permite a fusão de som e imagem em torno de padrões constituintes que se tornam comuns a ambos: volumes, massas, texturas, atmosferas, densidades, pontilhismos, entre as correspondências mais gerais.



A prática do VJing poderia ser situada como herdeira de uma longa tradição de pesquisa e experimentação em busca de fusão e de relações lúdicas entre som e imagem, que vem desde Pitágoras e as geometrias celestes em sinergia com as geometrias da acústica sonora da música, depois a Renascença europeia e os espetáculos multissensoriais de Leonardo da Vinci, depois então a contínua construção nos séculos pós-renascentistas de aparelhos audiovisuais chamados teclados de cores, passando então pelo cinema sinestésico (cf. Youngblood, 1970) do século 20 e então as experiências lisérgicas dos anos 1970, num caminho que chega hoje à computação gráfica como uma variação infinita de dados.



Este artigo reconhece, assim, o ambiente da computação gráfica como de uma possível estética, baseada na arte da programação e da sequência, na qual imagens sonoras e visuais podem adquirir atributos que são peculiares à própria passagem da música: a sequenciação no tempo, a interação sonoro-imagética por contraponto, ou seja, uma configuração para a percepção de texturas e de atmosferas, materializadas na figura do loop.



Significando laço, volta, trecho, o loop, elemento da geração de todos os cinemas, se firmaria, como lembra Manovich (2001), como um elemento estético-narrativo por excelência da era digital, trazendo de volta, com ele, ao mesmo tempo, saberes estéticos de períodos artísticos tão remotos e ‘atuais’ como o início do século 20 e até mesmo o ‘longínquo’ estilo barroco: remixagem ininterrupta e infinita de dobras, de voltas, de curvas. O loop, seguindo a sugestão de Manovich, nos parece o material de uma estética da remixagem ininterrupta de dados imagetico-sonoros.



Entende-se aqui esta remixagem como uma arte sobretudo da música, a música que se compõe de imagens e sons. Podemos agregar esta percepção ao pensamento de Chion (2011), segundo o qual o contrato audiovisual do cinema é tal que o som projetado na imagem produz uma nova percepção audiovisual, que por sua vez constituirá o quadro audiovisual total final, o que este autor chamou o valor acrescentado. Este artigo defende, portanto, a ideia de que o ‘valor acrescentado’ do videoclipe praticado pelo VJ é uma música.



Argumenta-se, por fim, de como a prática da sequenciação de loops volta a ser, nos dias de hoje, uma tendência estética, sugerindo um elo com os séculos 18 e 19, do amadurecimento do próprio cinema, na sua formatação do cinematógrafo. Com a computação gráfica, a arte de sequenciar loops evidencia uma renovação de estilos estéticos. Neste artigo, argumenta-se de como este pós-cinema (cf. Machado, 1997), também uma forma de cinema expandido (cf. Youngblood, 1970), retoma questões composicionais e, portanto, estéticas, em torno da convergência de som e imagem para um pensamento estruturalmente musical.
Bibliografia

CHION, Michel. A audiovisão. (trad. Pedro Elói Duarte), Lisboa: Edições texto&grafia, 2011



MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2000



__________________. Pré-cinemas e pós-cinemas. Campinas, SP: Papirus, 1997



MANOVICH, Levy. The Language of New Media. Cambrige, Mass.: MIT Press. 2001



PLESSNER, Helmuth. Antropologia dos sentidos. In: GADAMER, H. G. & VOGLER, P. (orgs.). Nova Antropologia: o homem em sua existência biológica, social e cultural; São Paulo: EPU, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1977, 7v



SANTAELLA, Lucia. & NOTH, Winfried. Imagem. Cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras, 2008



SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002



YOUNGBLOOD, Gene. Expanded cinema. Nova York: P. Dutton & Co., Inc.,1970