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  Título
Considerações sobre o Trágico – O papel do amor patológico em Vertigo
Autor
Daniel Lukan Schimith Silva
Resumo Expandido
A conexão que o amor estabelece com a tragédia é um aspecto vastamente trabalhado desde os primórdios do que até hoje conhecemos como ‘narrativa’. De "Medéia", de Eurípedes, até "Anna Kariênina", de Tolstoi, uma gama de histórias já foi contada usando a união dessas duas noções como fio condutor. Essa profusão torna ostensiva a lógica trágica que irrompe em tais enredos; seja por suas características fatídicas ou mesmo pela estruturação. Partindo dessa ideia inicial, o escopo desse trabalho é investigar como o desenvolvimento patológico do amor pontua a estruturação trágica no filme "Vertigo", do diretor Alfred Hitchcock, assim como no romance que lhe deu origem, "Sueurs Froides", de Boileau-Narcejac, publicado quatro anos antes do lançamento do filme ainda com o nome "D’entre les morts".



Desde Platão o conceito de amor recebe definições diversas, por exemplo, 'Ágape' e 'Eros'. Para o filósofo grego, essa dicotomia diferencia um amor autêntico (Ágape), que tende a libertar o indivíduo do sofrimento, ou seja, o amor aduzido a um plano divino e altruísta; do amor possessivo (Eros), aquele que é incontrolável e egoísta, no qual o amante persegue o amado como um objeto a ser devorado. Esse amor possessivo é o que domina os protagonistas Scottie (Vertigo) e Flavières (Sueurs Froides) e, em função disso, ambos os personagens atingem os níveis mais altos de patologia amorosa. O que gera como consequência uma intensa busca pela ‘ressurreição’ de Madeleine, sendo que, nessa reconstrução dela enquanto amante, eles acabam por reconstruir todo o cenário da tragédia, na qual deixam de ser meros espectadores, e tornam-se os principais agentes.



Portanto, utilizando definições dos estágios do amor patológico (LINO, 2009), propomos investigar como ocorre a gradativa passagem desses protagonistas por cada um desses níveis – paixão, amor obsessivo, dependência amorosa, violência – até seu grau mais elevado: a psicopatia. Para isso, analisaremos o modo como essas categorias estabelecem as peripécias e os reconhecimentos de ambas narrativas e como essas estruturas trágicas também servem como impulso para a passagem desses estágios de amor patológico. Assim, visamos utilizar essas investigações para ponderar sobre como Hitchcock utiliza os recursos visuais particulares ao cinema, seja expandindo ou suprimindo estratégias narrativas existentes, a princípio, no romance de Boileau-Narcejac, para transparecer e dar significado à progressão patológica de Scottie, em "Vertigo".



Em vista disso, temos como objetivo mostrar de que maneira a manifestação dessa patologia amorosa se apresenta distintamente no protagonista fílmico e no literário, de modo a estabelecer o diálogo entre as duas áreas e, também, observar como a profusão psicopatológica do amor nesses protagonistas será responsável por modular o paradigma trágico, que será motivador dos ‘destinos’ dessas histórias e inevitabilidade de suas execuções.
Bibliografia

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BOILEAU, Pierre; NARCEJAC, Thomas. "Sueurs Froides". Paris: Éditions Denoël, 2014.

BURIAN, Peter. Myth into muthos: the sahping of tragic plot. In: EASTERLING, P.E. "The Cambridge companion to greek tragedy". 12ª Ed. New York: Cambridge University Press, 2012.

CATALÃO, Helena. Desejo, Niilismo e Testemunho Vertigo de Alfred Hitchcock em Desconstrução. In: "Revista Portuguesa de Filosofia". Disponível em: http://www.jstor.org/stable/41803883?seq=14#page_scan_tab_contents acessado em 31/10/2015.

LEE, J. A. Love-styles. In R. J. Sternberg & M. L. Barnes (Coord.). "The psychology of love". New York: Yale University, 1988. p. 38-67.

LESKY, Albin. "A Tragédia Grega". São Paulo: Perspectiva, 2010.

LINO, Thiago Lopes. "A patologia do amor – da paixão à psicopatologia". Disponível em: . Acessado em: 03 jan. 2016.