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  Título
Esboços de uma teoria do documentário em Aloysio Raulino
Autor
Victor Ribeiro Guimarães
Resumo Expandido
Em O Tigre e a Gazela, curta-metragem fotografado, montado e dirigido por Aloysio Raulino em 1976, as imagens documentais – especialmente aquelas forjadas no encontro com sujeitos marginalizados no espaço urbano – são constantemente intercaladas com um conjunto de fragmentos literários, provenientes (sobretudo, mas não exclusivamente) da obra de Frantz Fanon. As conexões e os atritos produzidos entre as imagens, o texto e a música (de Luiz Melodia a Milton Nascimento, passando por hinos patrióticos brasileiros) são da ordem da fricção, e resultam não apenas em um belíssimo poema dedicado aos moradores de rua, aos loucos e aos foliões que povoam a cidade, mas em um “ato teórico” (AUMONT, 2008) que busca investigar as relações – tensas, intrincadas, conflituosas – entre o artista e o povo.

Esse binômio, tão crucial para o pensamento sobre o documentário no Brasil – tradição que tantas vezes buscou interrogar a linguagem “como o palco de conflitos ideológicos e estéticos dos cineastas na sua relação com a temática popular” –, como escreveu Jean-Claude Bernardet (2003, p. 9) –, está presente em toda a obra de Raulino, mas é encampado de forma explícita e tratado como reflexão metacinematográfica em O Tigre e a Gazela. É curioso, nesse sentido, que o filme tenha escapado à filmografia de Cineastas e imagens do povo, uma vez que sua envergadura teórica é tão evidente quanto a de Congo (1972), de Arthur Omar. Um dos objetivos do trabalho é justamente contribuir para saldar essa dívida histórica, que vem sendo reconhecida pelo próprio Bernardet em intervenções recentes.

Diferentemente de Congo, no entanto, O Tigre e a Gazela não foi acompanhado à época de um manifesto publicado pelo autor, como é o caso de “O anti-documentário, provisoriamente” (OMAR, 1978). Essa ausência de um texto reflexivo também é um fator que nos compele à análise imanente, que busca extrair da obra uma elaboração de natureza conceitual. Partimos da necessidade, enunciada por Nicole Brenez, de “colocar sempre confiança no filme, assumindo sempre que um filme pode pensar tão bem quanto um texto teórico” (BRENEZ, 2010, p. 70).

Logo no início, sobre a imagem da limpeza de um par de óculos, a narração enuncia: “O cálculo, os silêncios insólitos, as segundas intenções, o espírito subterrâneo, o segredo, tudo isso o intelectual vai abandonando à medida que imerge no povo”. O desnudamento e a entrega preconizados por Fanon serão encampados materialmente pela câmera 16mm, que imerge na multidão pedestre de forma epidérmica. A encenação rechaça tanto a distância observacional quanto a entrevista, e se entrega peremptoriamente a um embate campal com os corpos, em uma proximidade visceral que atinge a granulação e o desfoque na figuração tátil da pele negra pela fotografia em preto e branco, altamente contrastada.

De um lado, há um investimento em traduzir formalmente, em termos cinematográficos, as ideias de Fanon (intelectual importante para toda uma geração do cinema latino-americano, de Glauber Rocha a Fernando Solanas), como na acentuação do contraste que esbranquiça a negritude e remonta às teses de Pele negra, máscaras brancas (FANON, 2008). De outro, o filme excede largamente a circunscrição fanoniana e formula uma reflexão própria, que conjuga o ímpeto documental às intervenções ensaísticas da montagem vertical. Na encenação da frontalidade singular dos olhares dos transeuntes, há tanto a fulguração do encontro quanto a reflexividade proporcionada pelo atrito com os excertos musicais e literários.

O olhar-câmera, figura-chave da obra de Raulino, aparece aqui em sua elaboração mais reflexiva, tomado como um laboratório constante para investigar, a cada plano, as tensões entre quem é filmado, quem filma e quem olha. O Tigre e a Gazela vislumbra o cinema documentário como um mergulho sensível na espessura das distâncias, uma dança vertiginosa sobre a superfície das cisões, um salto de corpo inteiro no abismo entre os cineastas, o povo e o espectador.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. “Pode um filme ser um ato de teoria?”. In: Revista Educação e Realidade, nº 33 (1), jan/jun 2008, PP. 21-34.

BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e Imagens do Povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

______________________. “A discreta revolução de Aloysio Raulino”. In: CARDOSO VALE, Glaura (org.). Catálogo do 17º Forum.doc BH. Belo Horizonte: Associação Filmes de Quintal, 2013.

BRENEZ, Nicole. “Paris, 18 de agosto de 1997”. In: ROSENBAUM, Jonathan & MARTIN, Adrian (coord.). Mutaciones del cine contemporáneo. Madrid: Errata Naturae, 2010, pp. 77-86.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

_____________. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

OMAR, Arthur. “O antidocumentário, provisoriamente”. In: Revista de Cultura Vozes nº 6, ano 72, 1978, p. 405-418.

TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. Documentário no Brasil: tradição e transformação. São Paulo: Summus, 2004.