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  Título
Cinema lésbico experimental - permanências e atualizações
Autor
Érica Ramos Sarmet dos Santos
Resumo Expandido
Laura Mulvey, em seu famoso ensaio sobre o prazer visual e o cinema narrativo, diz que o cinema, muito mais do que realçar a qualidade que a mulher tem de ser olhada, constrói o modo como ela deve ser olhada. Não à toa, Mulvey faz um apelo à produção de uma prática cinematográfica feminista de vanguarda que opere em ruptura com o passado, privilegiando novas formas de linguagem visual. O cinema lésbico experimental parece atender a esse pedido. Por cinema lésbico experimental me refiro aos filmes feitos por realizadoras lésbicas feministas norte-americanas que, a partir da década de 70, apostam no poder subversivo do corpo e desejo lésbicos como mobilizadores do prazer e instrumentos de crítica social e política. Barbara Hammer, cineasta e artista visual ainda em atividade, é reconhecida sobretudo por ser a diretora que irá inaugurar essa estética que preza pela celebração da intimidade, do desejo, do amor e da vida, em um momento em que todas as narrativas que se conheciam versavam sobre a dor, o aprisionamento e a morte do corpo lésbico.

Como sabemos, o corpo lésbico é um corpo invisível - invisível para a sociedade, invisível para o cinema. Em “Dyketatics” (1974) e “Women I Love” (1976), através do visionamento de diferentes relações entre mulheres, incluindo as suas próprias, Hammer escreve e registra o cotidiano, a alegria e o senso de comunidade que atravessam esses corpos.

O erótico é um elemento fundamental tanto na sua filmografia como nos filmes de outra cineasta lésbica, Su Friedrich – ainda que, nesses, seja operado de maneira menos "explícita". Uso aqui a palavra erótico não por acreditar numa separação hierarquizada entre erotismo e pornografia, mas por reconhecer a potência de sua ligação com a etimologia de "eros" - a personificação do amor, nascido do Caos. Nesses filmes, o erótico é um elemento que compõe a força vital e a energia criativa das mulheres lésbicas, sem o qual não é possível criar, se reconhecer e estar no mundo.

Partindo da noção de visualidade háptica tal como teorizada por Laura Marks, entendendo-a como uma estratégia visual feminista que constrói um olhar tátil e erótico sobre o corpo e que, ao fazê-lo, quebra com a tradição do regime de espectatorialidade masculina do cinema, podemos argumentar que o cinema lésbico experimental é, nesse sentido, fundamentalmente háptico. Baseados em construções imagéticas que flertam tanto com a tradição documental do registro etnográfico como com a autoficção, esses filmes versam sobre a vida e a sociabilidade sapatão, muitas vezes colocando em cena os corpos e subjetividades das próprias diretoras.

Em 2012, a cantora francesa Soko lança seu primeiro álbum, “I thought I was an alien”, e dele derivam dois videoclipes, filmados em super 8, dirigidos e estrelados por ela própria. Em “We Might Be Dead By Tomorrow”, uma iconografia da morte é intercalada com momentos de intimidade, sexo e alegria de Soko e sua namorada da época, Meghan Edwards. Já em “First Love”, duas meninas encenam uma amizade que é, ao mesmo tempo, uma memória do passado e o início de uma descoberta sobre o corpo e o amor. A experiência instigante, sensual e proibida do primeiro toque também está presente em “Hide and Seek” (1997), de Su Friedrich, documentário experimental que intercala a narrativa ficcional da jovem Lou, 12 anos, com entrevistas nas quais mulheres lésbicas falam sobre suas infâncias, famílias, descobertas da sexualidade e relacionamentos.

Assim, buscarei neste artigo investigar a existência de uma estética lésbica experimental que é fundamentalmente erótica e política, e, a partir de uma análise comparativa entre as produções de Soko, Hammer e Friedrich, refletir sobre as permanências e atualizações dessa estética no videoclipe, procurando investigar, também, como esse formato pode contribuir para a adequação de tal estética às formas e demandas do capitalismo contemporâneo, no qual identidades queer e feministas vão, cada vez mais, sendo estrategicamente operadas.
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