Voltar para a lista
 
  Título
O fantasma de Lessing: a literatura e o cinema segundo Borges
Autor
Palmireno Couto Moreira Neto
Resumo Expandido
Em uma conversa com Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges sentenciou: “En cinematógrafo somos lectores de Madame Delly.” Embora a alusão à obra dos irmãos Petitjean de La Rosière soe condenatória, o próprio Bioy Casares indica que o interesse de Borges pelo cinema permite interpretá-la “como un juicio sobre el cine que se había hecho, no sobre el cine posible”. De fato, um frequentador constante de salas de cinema, Borges demonstrava o fascínio das primeiras gerações que acompanhavam os desdobramentos de uma linguagem logo comparada a outras formas de expressão artística.



As referências ao cinema aparecem muito cedo na sua obra. Em 1920, durante uma viagem da família à Europa, as qualidades de um “film cinemático” são evocadas em uma metáfora no poema Insomnio, impresso na revista Grecia. Nos anos seguintes, o cinema é mencionado em diversos ensaios. No principal deles, “El cinematógrafo, el biógrafo” (1929), Borges debate, a partir de uma questão semântica, as possibilidades de representação através da nova arte. A discussão é ampliada em resenhas publicadas em Sur entre 1931 e 1945, nas quais ele aborda temas relacionados à narrativa cinematográfica. De certa forma, recorre ao cinema nesses artigos para problematizar a própria narrativa. É o que nota Edgardo Cozarinsky: “El cine (más bien una idea de cine) aparece asociado en Borges a la práctica de la narración, aun a la posibilidad misma de abordar la narración.” Desse modo, Borges, no papel de crítico de cinema, entretece textos fílmicos e literários e analisa procedimentos envolvidos na construção de um relato.



Nesse período, o cinema também é incorporado por Borges no exame de outros problemas teóricos da literatura. Em “La postulación de la realidad”, publicado em Discusión (1932), ele trata de diferentes métodos literários de apresentação da realidade e inclui Joseph von Sternberg, diretor austro-húngaro que havia construído uma carreira nos Estados Unidos, entre os representantes do modo mais difícil e eficiente: “Asevero lo mismo de las novelas cinematográficas de Joseph von Sternberg, hechas también de significativos momentos.” Por sua vez, em “El arte narrativo y la magia”, do mesmo livro, ele identifica a causalidade como o ponto central da novelística e descobre uma analogia entre o procedimento mágico (tal como descrito por James Frazer) e a forma de construção do relato no romance de aventura e no cinema americano (“la infinita novela espectacular que compone Hollywood con los plateados ídola de Joan Crawford y que las ciudades releen”).



Alinhada aos estudos de estética comparada, a apresentação abordará esse corpus de referências ao cinematógrafo para delinear os principais aspectos da aproximação entre a literatura e o cinema realizada pelo escritor argentino, ressaltando as suas considerações sobre as especificidades da imagem e da palavra.
Bibliografia

AGUILAR, Gonzalo. JELICIÉ, Emiliano. Borges va al cine. Buenos Aires: Libraria, 2010.

BORGES, Jorge Luis. Discusión. Buenos Aires: Debolsillo, 2012.

_____. El cinematógrafo, el biógrafo. In: Textos recobrados (1919-1929). Barcelona: Random House Mondadori, 2011, edição digital.

_____. Historia de la eternidad. Barcelona: Random House Mondadori, 2011, edição digital.

_____. Nuestras imposibilidades. In: Miscelánea. Barcelona: Random House Mondadori, 2011, edição digital.

BRESCIA, Pablo. El cine como precursor: von Sternberg y Borges. Espacios, Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Buenos Aires, n. 17, p. 64-70, nov.-dez. 1995.

COZARINSKY, Edgardo. Borges en/y/sobre cine. Madrid: Fundamentos, 1981.

OUBIÑA, David. El espectador corto de vista: Borges y el cine. Variaciones Borges, Pittsburgh: University of Pittsburgh, n. 24, p. 133-152, out. 2010. Disponível em:

. Acesso em: 22 jun. 2015.