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  Título
Montagem e história nas imagens documentais das Jornadas de Junho/2013
Autor
Vinícius Andrade de Oliveira
Resumo Expandido
Na virada dos anos 2000 para a década atual, na esteira de um conjunto complexo de mudanças históricas, que envolvem desde o aprofundamento da crise urbana nas cidades brasileiras até a emergência de novíssimos movimentos de luta social (MARICATO, 2014), passando pelo descontrole do capitalismo financeirizado no mundo (ROLNIK, 2015), ganha força no país uma rica e combativa produção documental. Forjada muitas vezes a partir da colaboração entre cineastas e movimentos, tais documentários caracterizam-se por, simultaneamente, participarem e registrarem – engajando-se e tornando sensíveis – as disputas pela reabertura/retomada do espaço urbano para o uso comum (AGAMBEN, 2015)

Embora se apresente como um acontecimento cujos sentidos permanecem em aberto, ou, como indica Marcos Nobre (2013), como uma narrativa ainda em disputa, as Jornadas de Junho de 2013 podem ser consideradas o ponto alto de ebulição e marco temporal de alguns dos processos históricos mencionados. As manifestações do período colocaram nas ruas um expressivo número de indivíduos – cerca de 12% do contingente total de cidadãos brasileiros, segundo Pablo Ortellado (2013) – e uma infinidade de agendas que, ainda que impulsionadas inicialmente pela reivindicação contra o aumento das tarifas de transporte coletivo, trazida à tona pelo Movimento Passe Livre de São Paulo, sinalizaram também para um vivo mas ainda pouco conhecido legado de lutas urbanas acumulado na última década por novos movimentos sociais autonomistas (além do Passe Livre, novos feminismos, bicicletadas, grupos contra o genocídio da juventude negra).

No intuito de compreender em que medida as imagens das disputas pelo espaço urbano, entre manifestantes e forças policiais ou representantes do poder público, por exemplo, tornam-se objeto de uma posta em perspectiva histórica singular, circunscrevemos três documentários realizados sob os anseios insurrecionais de Junho de 2013 e dedicados integralmente ao registro e reflexão em torno dos acontecimentos de rua ali ensejados: Com vandalismo (Coletivo Nigéria, 2013), Por uma vida sem catracas (Carlos Pronzato, 2013) e Junho (João Wainer, 2014). O problema central emerge na pergunta: que tipo de conhecimento histórico sobre as manifestações retratadas, seus atores e métodos, seus antecedentes e possíveis desdobramentos, esses filmes nos dão a ver?

Para enfrentar a questão, apostamos na investigação das operações de associação das imagens dos conflitos contidas nos filmes com outras imagens, fontes e testemunhos através da montagem (DIDI-HUBERMAN, 2012) e no posterior cotejo entre o modo como essas operações são realizadas em cada filme. Trata-se, portanto, de observar de que maneira é engendrada uma determinada “legibilidade” (DIDI-HUBERMAN, 2012) para as lutas sociais nas quais os filmes se engajam, sobretudo nas suas relações com a história recente de mobilizações urbanas e o horizonte de novas reivindicações, e perceber, comparativamente, em que medida os gestos de montagem nos revelam formas inéditas de olhar para as experiências de um passado de lutas ainda inaudito.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Meios sem fim: notas sobre a política. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.



DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagem-montagem ou imagem-mentira. In: Imagens apesar de tudo. KKYM: Lisboa, 2012.



JUDENSNAIDER, Elena; LIMA, Luciana; ORTELLADO, Pablo; POMAR, Marcelo. Vinte centavos: a luta contra o aumento. São Paulo: Editora Veneta, 2013.



MARICATO, Ermínia. O impasse da política urbana no Brasil. Vozes: Petrópolis, 2014.



NOBRE, Marcos. Choque de democracia – As razões da revolta. Companhia das letras: São Paulo, 2013.