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  Título
Subjetivações perambulantes: uma teoria dos filmes de Karim Aïnouz
Autor
Marcelo Carvalho da Silva
Resumo Expandido
Esta proposta de comunicação visa discutir a presença da ideia de “perambulação” em filmes de Karim Aïnouz, tanto como diretor, quanto como roteirista. Nossa hipótese é a de que o cineasta colocaria em jogo constantes deslocamentos espaciais perambulantes que põem em curso processos de subjetivação (verdadeiros deslocamentos “intensivos”) a partir de um incidente desarticulador (momento de mutabilidade em seus filmes).



A figura dominante na maior parte dos longas-metragens de ficção de Aïnouz é a da situação inicial que tem seu equilíbrio desfeito, restando aos personagens apenas conexões rompidas e disjunções de toda ordem. É o drama vivido por Hermila de O céu de Suely (2006): ao saber de seu companheiro que ele não irá ao seu encontro em Iguatu, no interior do Ceará, e que criará o filho sozinha, passa a zanzar pela cidade até encontrar uma saída existencial, rifar seu corpo para financiar a próxima viagem, reinventando-se em outro lugar.



Em Praia do futuro (2014) o viajante Konrad tem seu périplo pela América do Sul interrompido pela morte do amigo por afogamento. Com a perda do objetivo, Konrad perambula por Fortaleza. Por sua vez, o salva-vidas Donato entra em crise por não ter conseguido salvar a vida do amigo de Konrad. Desorientados, acabam por iniciar um relacionamento amoroso. “Queria um personagem que tivesse uma profissão com uma questão de vida ou morte. (...) Sempre tive essa imagem de um personagem que quer se mudar, mudar de vida, começar tudo de novo” (AÏNOUZ, 2014).



É também esta a figura encontrada em O abismo prateado (2013, a partir de roteiro de Beatriz Bracher): Violeta, surpreendida pelo abandono inesperado do marido, está presa numa perambulação solitária pela noite de Copacabana. Em sua “viagem urbana” desesperada, ela tenta – em meio a encontros fortuitos com desconhecidos (e, principalmente, consigo mesma) – recompor pequenos nichos afetivos em sua vida subitamente esvaziada: Violeta “não interage muito com ninguém, é mais uma interação com o tempo e o espaço, que são os grandes antagonistas. É um filme mais de sensação” (AÏNOUZ, 2013).



Mas há uma variação dessa figura expressa quando o incidente desarticulador é anterior ao filme. Em Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009, em codireção com Marcelo Gomes), há um efeito retardado de compreensão da situação perambulante onde o personagem se encontra. Não vemos o personagem do filme, apenas ouvimos sua voz em off. As referências extemporâneas à saudade que sente da companheira dissonam das descrições objetivas sobre o trabalho em execução. A situação perdura até ele revelar que a companheira o havia abandonado e que não tem mais porque voltar: somos informados que a realidade até então relatada pelo personagem só existe como saudade e ressentimento. Aos poucos o trabalho é esquecido em prol de uma perambulação na qual o personagem inventa novas formas de existência para si.



E há ainda a inversão da figura principal, isto é, quando um incidente desarticulador, em vez de deflagrar, interrompe uma situação de perambulação. Como em Cinema, aspirinas e urubus (2005, de Marcelo Gomes). Mesmo que a participação de Aïnouz seja colaborativa (é coautor do roteiro com Paulo Caldas, Marcelo Gomes e João Miguel), parece-nos que suas preocupações estéticas encontram-se presentes: Johann e Ranulpho perambulam de caminhão pelo interior do Nordeste. Após o Brasil declarar guerra à Alemanha nazista, Johann, sendo alemão, é chamado para ser detido num campo de concentração ou voltar para Alemanha e ter que alistar-se no exército. Johann livra-se de seus documentos, torna-se clandestino, enquanto Ranulpho inicia nova perambulação pelo sertão nordestino.



Pareceu-nos que a poética de Aïnouz enseja todo um discurso teórico subjacente acerca do binômio “mobilidade espacial / processo de subjetivação” enquanto concepção e práxis cinematográficas, características encontradas tanto em seus filmes quanto em entrevistas concedidas à imprensa.
Bibliografia

AÏNOUZ, Karim. A política do corpo e o corpo político. Entrevista à Revista Cinética. Disponível em Acesso em: 14 mai. 2016.



______. Brasil não faz comédia, faz chanchada. Entrevista ao Portal IG, 27 abr. 2013, Disponível em Acesso em: 18 mai. 2016.



______. Os deslocamentos e as perturbações no cinema de Karim Aïnouz. Entrevista à Revista de Cinema / UOL, 15 mai. 2014. Disponível em Acesso em: 17 mai. 2016.



BRANDÃO, Alessandra. Viagens, passagens, errâncias: notas sobre certo cinema latino-americano na virada do século XXI. Rebeca (revista brasileira de estudos de cinema e audiovisual), ed. 1, n. 1, jan.-jun. 2012. Disponível em: Acesso em: 4 mai. 2016.