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  Título
Neonoir, novos homens?: Masculinidades em Drive, eXistenZ e Twin Peaks
Autor
Fernando Mascarello
Resumo Expandido
O trabalho propõe uma análise da representação da masculinidade nos filmes Drive (Nicolas Winding Refn, 2011) e eXistenZ (David Cronenberg, 1999) e na série Twin Peaks (David Lynch, 1990 a 1991). Os dois filmes e a série são aproximados como exemplos de uma possível vertente minoritária do chamado neonoir, cujos protagonistas encenam novas possibilidades de uma masculinidade heterossexual em reconfiguração. Com base em autores tanto dos estudos queer e de gênero, como Eve Sedgwick e Judith Butler, quanto dos estudos sobre os homens, como Todd Reeser, procuro pensar os sentidos dos comportamentos desses protagonistas como exploratórios de masculinidades heterossexuais tradicionalmente tipificadas como desviantes ou não-preferenciais pelo patriarcado.



De início, a fim de compor uma necessária moldura teórica e histórica na área dos estudos noir e neonoir, procedo a uma revisão bibliográfica sobre o tema da dramatização do embate entre homem e mulher nessas filmografias. Naturalmente, esse tema já tem sido bastante discutido na extensa pesquisa em torno à manifestação original do noir nos EUA entre as décadas de 1940 e 1950 (ver Mascarello [2012] para uma síntese desse debate em específico). No que tange ao neonoir, por outro lado, tanto o estabelecimento do campo de estudo quanto a discussão sobre o tema do referido embate entre os sexos têm, ambos, sido mais árduos e complexos, pelo fato de a filmografia ser mais recente e bem mais diversificada e disseminada entre distintos gêneros cinematográficos.



No mapeamento inicial do campo do neonoir – inaugurado, entre outros, por Hirsch (1999) –, um fenômeno recorrente é a ênfase dos pesquisadores sobre a reposição, nesses filmes, da masculinidade compulsivamente exagerada típica de muitos personagens do noir original, reativa ao empoderamento feminino metaforizado pela figura da mulher sexualmente agressiva e fatal (conforme a análise clássica de Krutnik [1991]). Uma hipótese central do presente trabalho é a de que existe, porém, uma vertente, ainda que minoritária, do neonoir que encena comportamentos heterossexuais masculinos que desviam da norma heteronormativa, contribuindo para o desbravamento de territórios necessários a uma reconfiguração anti-patriarcal e anti-homofóbica da masculinidade. Essa hipótese se alinha com o fato de que, após uma má acolhida inicial ao noir pelas teóricas feministas do cinema (nos 1970), já ao final dos 1980, municiado pelos estudos queer e de gênero que começavam a se estruturar, o pensamento feminista passa a perceber que, no noir, o que está demarcado, implicitamente, é exatamente a falência dos comportamentos masculinos reativos que os filmes representavam.



Partindo desse recorte teórico e histórico do noir e do neonoir, bem como da hipótese inicial de pesquisa, procedo à análise da representação das masculinidades heterossexuais tais como performadas pelos protagonistas dos filmes e série: o motorista de Drive; o falso agente de marketing Ted Pikul em eXistenZ; e o agente do FBI Dale Cooper em Twin Peaks. A análise elege como foco os papéis e comportamentos assumidos por estes protagonistas em suas relações amorosas ou erotizadas com as personagens femininas (as protagonistas Allegra Geller, em eXistenZ, e Irene, em Drive; e a personagem Audrey, em Twin Peaks), e também, subsidiariamente, em seu convívio com outros personagens masculinos e femininos (particularmente em Twin Peaks).



A fim de embasar o esforço de análise, mobilizo seja o referencial teórico dos estudos queer e de gênero, seja as contribuições igualmente essenciais para a contemporânea compreensão da heterossexualidade masculina trazidas pelos chamados estudos sobre os homens. Entre os autores que têm colaborado para a constituição desse campo, a análise recorre em particular ao teórico Todd Reeser (2010) e a alguns dos colaboradores da obra psicanalítica contemporânea de maior destaque na área das masculinidades heterossexuais, o livro organizado por Reis e Grossmark (2009).
Bibliografia

BUTLER. Judith. Gender trouble. Nova Iorque: Routledge, 1990.

COHAN, Steven; HARK, Ina Rae (orgs.). Screening the male: Exploring masculinities in Hollywood cinema. Nova Iorque: Routledge, 1993.

HIRSCH, Foster. Detours and lost highways: A map of neo-noir. Nova Iorque: Limelight, 1999.

KRUTNIK, Frank. In a Lonely Street: Film Noir, Genre, Masculinity. Londres: Routledge, 1991.

LEHMAN, Peter (org.). Masculinity: Bodies, movies, culture. Nova Iorque: Routledge, 2001.

MASCARELLO, Fernando. Film noir. In: MASCARELLO, Fernando (org.). História do cinema mundial. Campinas: Papirus, 2012. 7a. ed.

REIS, Bruce; GROSSMARK, Robert. Heterosexual masculinities: Contemporary perspectives from psychoanalytic gender theory. Nova Iorque: Routledge, 2009.

REESER, Todd. Masculinities in theory: An introduction. Malden: Blackwell, 2010.

SEDGWICK, Eve Kosofsky. Between men: English literature and male homosocial desire. Nova Iorque: Columbia University Press, 1985.