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  Título
Memórias e ativismo no caso da reativação do cine-teatro belga De Roma
Autor
Talitha Gomes Ferraz
Resumo Expandido
Simon Raynolds (2011) pontua que a primeira década do século XXI caracterizou-se como a “década do re-”. Fazendo menção à onda retrô que surgiu com força no cenário do rock nos anos 2000, Raynolds comenta a vasta predominância do prefixo “re-” nas elaborações de produtos e narrativas pelas indústrias culturais contemporâneas. Retrospectivas, ressurgimentos e revivais são alguns dos termos supracitados em meio a dinâmicas socioculturais e midiáticas identificadas pelo autor. Para além do horizonte analisado por Raynolds, não é difícil percebermos as consagrações do prefixo “re-” em outras esferas socioculturais e de consumo cultural. No cinema, por exemplo, remakes de clássicos do século XX já se configuram como clichês rentáveis para o mercado. No que concerne às salas de cinema, conexões entre esse equipamento coletivo urbano e uma “onda retrô” têm se fortalecido mundialmente em graus variados.



De maneira associada a uma gama de noções que sugerem a urgência da proteção histórica, reativação ou restauração desses dispositivos tecnológicos, urbanos, midiáticos e sociais – cuja primazia ocorreu mais amplamente em outras épocas das mídias e das cidades –, o assunto ‘sala de cinema’, especialmente ‘cinema de rua’, passou a integrar com acentuada recorrência pautas tratadas por políticas públicas culturais, interesses temáticos de reportagens jornalísticas, relatos saudosistas de cinéfilos, iniciativas de alguns setores do mercado cinematográfico etc. Esses agentes costumam representar tais cinemas como potentes liames socioculturais capazes de acionar uma série de conteúdos históricos e mnemônicos ligados à cultura cinematográfica.



Diante disso, examinamos o caso do cine De Roma, localizado na cidade da Antuérpia (Bélgica), que se destaca em meio às atuais tendências belgas de retomada de antigos cines de rua. A relevância do De Roma se deve tanto ao seu papel como um histórico marco referencial do lazer urbano nessa cidade quanto às dinâmicas desenvolvidas desde 2003 em torno do seu longo processo de reforma e reativação como um cine-teatro popular, dedicado a shows musicais e sessões de filmes de arte.



Após 20 anos de abandono e deterioração das estruturas originais do cinema, as etapas de reativação do De Roma contaram com o ativismo de entusiastas (antigos frequentadores, moradores locais e agentes culturais) que, amparados pela figura de uma associação sem fins lucrativos criada especificamente para tal finalidade, promoveram as obras e os reparos gerais no local. O projeto do De Roma não contou incialmente com aportes financeiros estatais, nem mesmo com investimentos do setor privado. Foi a partir da mobilização de um circuito de voluntários que todos os primeiros avanços rumo à retomada cultural do espaço ocorreram. Mesmo com a posterior entrada de capital público e empresarial, até hoje são essas pessoas – unidas num corpo de voluntários e alguns funcionários assalariados– as responsáveis pela gestão, a programação e o funcionamento operacional do local.



Por meio da análise de dados coletados durante uma pesquisa etnográfica realizada na Bélgica entre 2015 e 2016, investigamos, à luz de conceitos como “memória coletiva” (HALBWACHS, 1992), “memória enquadrada” (POLLAK, 1989), “lugares de memória” (NORA, 1984) e “usos e abusos da memória” (RICOEUR, 2004) as camadas socioculturais e sociopolíticas, a rede de narrativas ligadas às experiências vividas ontem e hoje por frequentadores e o campo de forças por onde se produzem determinadas versões sobre o passado do De Roma em vista das necessidades de sua conservação no presente. Nosso interesse é analisar a integração entre ações e discursos que balizaram a recuperação do De Roma e que atualmente dão ensejo às justificativas para a sobrevida do equipamento, a gestão de seus recursos e a conquista de mais e mais entusiastas, voluntários e investidores privados e governamentais.
Bibliografia

DE ROMA WEBSITE. Desenvolvido pelo teatro De Roma. Apresenta informações sobre o teatro. Disponível em: http://www.deroma.be . Acesso em: 17 maio 2016.



DE ROMA, A UNIQUE HISTORY. Antuérpia: De Roma, s/d, 10 p. Relatório técnico.



FOUCAULT, Michel. Space, knowledge and power. In: RABINOW, Paul (Ed.). The Foucault Reader. New York: Pantheon Books, 1984.



HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.



MALTBY, R.; BILTEREYST, D.; MEERS, P.. Explorations in new cinema history: approaches and case studies. Oxford: John Wiley & Sons, 2011.



NORA, P. Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1984.



POLLAK, M. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.2, n.3, p.3-15, 1989.



RICOEUR, P. Memory, History, Forgetting. Trad.: Kathleen Blamey e David Pellauer. Chicago, London: The University Chicago Press, 2004.



TODOROV, T. Les abus de la mémoire. Paris: Arléa, 2004.