Voltar para a lista
 
  Título
Apontamentos sobre as relações entre corpo e repertório
Autor
Fabio Allan Mendes Ramalho
Resumo Expandido
Falar em repertório nos remete ao inventário de obras e elementos da cultura audiovisual que coletamos em nossos trânsitos pelo universo das imagens e que conectamos numa rede de referências compostas de formas, códigos, gestos, linhas de diálogo, artefatos, memorabilia etc. Este arco de elementos contribui para delinear sensibilidades que são a um só tempo singulares – posto que tecidas pelas nossas experiências – e partilhadas coletivamente – como é o caso, por exemplo, das comunidades de espectadores e circuitos de cinefilia.



Existem ao menos dois sentidos em que podemos dizer que os repertórios são "incorporados". Primeiramente, temos o fato de que a própria experiência da espectatorialidade constitui um encontro, uma maneira de colocar corpos em relação: o corpo do espectador, tomado em sua acepção individual e também coletiva -- como no caso de uma plateia ou público -- bem como a própria obra entendida como corpo fílmico, uma vez que os filmes são, eles próprios, dotados de uma existência material.



Sob essa perspectiva, a constituição de um repertório nos remete à história e ao traçado desses encontros, bem como à assimilação e eventual recuperação de imagens e outros componentes das obras, mediante cadeias associativas de memória e atualização. De fato, mesmo no senso comum encontramos a compreensão de que formar, acessar e compartilhar repertórios pressupõe singularidade e também variabilidade – constituir ou traçar um repertório dentre vários possíveis.



Em segundo lugar, dizemos também que o repertório é incorporado na medida em que traz consigo um inventário de poses, movimentos, gestos e falas que se inscrevem no corpo e que são citáveis, apropriáveis, e que, por isso mesmo, podem ser experimentados em suas variações possíveis, deslocados dos regimes de apresentação e de codificação em que se encontram inicialmente inseridos.



Tem-se, com isso, que os repertórios não se confundem com os artefatos que fazem circular as obras. Nesse sentido, é relevante recorrer à distinção que Diana Taylor (2013) estabelece entre arquivo e repertório. Num momento em que os arquivos ganham cada vez mais visibilidade e relevância para os estudos de cinema, cabe deslindar as peculiaridades do repertório como conceito, bem como suas potencialidades para pensar o campo das nossas relações com o audiovisual. De acordo com Taylor, o arquivo se ampara numa certa estabilidade, na medida em que permite a distância no tempo e no espaço, ao passo que o repertório assume uma qualidade mais efêmera e permanece mais estreitamente vinculado ao caráter contingente daquele ou daquela que o evoca.



Não obstante, convém observar que Taylor escreve a partir da perspectiva dos estudos da performance, que postulam uma diferença radical entre o acontecimento da performance e seu registro. No caso de expressões como o cinema e outras linguagens audiovisuais, estas duas instâncias, ainda que não se confundam, encontram-se imbricadas pelo fato de que a performance se dá para a câmera e visa sobretudo ao registro pelo aparato, conforme Walter Benjamin observara em seu ensaio seminal sobre a reprodutibilidade técnica. Tal contiguidade, no caso do cinema, torna ainda mais relevante a necessidade de um adensamento do debate acerca dos repertórios nos meios audiovisuais.



Por fim, em seu esforço para traçar uma espécie de genealogia dos estudos visuais latino-americanos, bem como daquilo que chama de “epistemologias visuais e sensórias”, Esther Gabara (2010) acrescenta à questão do arquivo a importância da potência do gesto e também das “interseções entre corpo, linguagem e código”. Nesse contexto, o repertório funciona como elemento-chave na mediação entre os três aspectos destacados pela autora, uma vez que permite colocar em relação 1) os filmes como artefatos materiais, 2) os corpos como interfaces de relação com imagens e sons e, por fim, 3) as formas, narrativas, poses e códigos que conformam o universo cinematográfico.
Bibliografia

BENJAMIN, W. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. In: CAPISTRANO, T. (org.). Benjamin e a obra de arte: Técnica, Imagem, percepção. Tradução de Marijane Lisboa. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012, p. 9-40.



BURGIN, V. The remembered film. London: Reaktion Books, 2004.



GABARA, E. Gestures, Practices, and Projects: [Latin] American Re-visions of Visual Culture and Performance Studies. E-misférica 7.1: Unsettling visuality, 2010. Disponível em http://hemisphericinstitute.org/hemi/fr/e-misferica-71/gabara. Acesso em 10 de maio de 2016.



LOXLEY, J. Performativity. London and New York: Routledge, New Critical Idiom, 2007.



MARKS, L. U. The skin of the film: intercultural cinema, embodiment, and the senses. Durham: Duke University Press, 2000.



MULVEY, L. Death 24x a second: stillness and the moving image. London: Reaktion Books, 2006.



TAYLOR, D. O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas Américas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.