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  Título
O México e o Mundo de Alejandro G. Iñárritu
Autor
Mauro Giuntini Viana
Resumo Expandido
Na primeira década do século XXI, o conjunto de filmes realizados por Alejandro González Iñárritu – Amores brutos (Amores peros, 2000), 21 gramas (21grams, 2003), Babel (Babel, 2006) e Biutiful (Biutiful, 2010) – oferece fértil material para uma reflexão sobre inovação na narrativa cinematográfica e as contradições e conexões entre os cinemas nacionais e a economia globalizada.

Os filmes de Iñárritu apresentam uma composição singular de manipulações formais das instâncias do tempo e da narração – não-linearidade e multiplicidade de protagonistas e de enredos ¬– assim como também tratam dos principais temas da globalização na atualidade: movimentos populacionais, multiculturalismo, desterritorialização, presença da mídia e da tecnociência no cotidiano. Situar a produção desse diretor latino-americano na história do cinema contemporâneo é examinar sua habilidade em transcender os parâmetros nacionais, imerso na necessidade da própria indústria cinematográfica em promover novas combinações entre a tradição e a inovação.

O artigo pretende estabelecer algumas conexões que permitam compreender como esse diretor mexicano foi capaz de desenvolver uma filmografia com unidade estética em sua narrativa, manter sua identidade artística e cultural, mesmo filmando em vários países de diferentes continentes, e, ao mesmo tempo, alcançar audiências em todo planeta.

Ao tratar de temas banalizados no cinema mainstream, como relações familiares, sexo e violência, oferecendo, porém, uma peculiar abordagem humanista marcada por seu imaginário cultural original, a cinematografia de Iñárritu destaca-se no panorama mundial ao expor contrastes e conflitos universais de um planeta caótico interligado por fluxos de informações e pessoas. Solidão, amor, morte e o impacto do acaso no destino são os temas proeminentes nos filmes estudados e serão abordados por um viés que demonstra a influência da identidade cultural mexicana na obra de Iñárritu.

O México é um país étnico e culturalmente híbrido como todos os outros povos latino-americanos. Apesar de Octavio Paz (2014) afirmar que os mexicanos normalmente neguem sua origem mestiça, sociólogos consideram a hibridização o aspecto mais saliente da mexicanidad (mistura racial, fusão de culturas, tradições e estilos). A negação da mestiçagem, um aspecto tão vital na constituição do povo mexicano, associada à ambiguidade com que concebe sua própria identidade pode ser sugestiva na compreensão da capacidade de Iñárritu em transpor barreiras nacionais e se inserirem em uma dinâmica global.

De acordo com Paz (2014, p. 31), o traço mais importante da identidade mexicana é a solidão. Tanto em sua incessante procura por sua origem, quanto na negação da sua linhagem histórica, os mexicanos estão, normalmente, trancados neles mesmos, fechados até mesmo para com seus conterrâneos por medo de verem seus reflexos projetados neles. A solidão é proeminente no estado de espírito dos principais personagens dos filmes de Iñárritu.

Paz (2014, p. 50-53) estabelece uma conexão intrigante entre a solidão e outros aspectos muito marcantes das tradições culturais mexicanas, também presentes nos filmes de Iñárritu: os excessos retóricos, a violência e a morte. A história do cinema desse país é uma das manifestações caracterizadas por essa retórica do excesso. A morte é outro tema muito presente na cultura mexicana e de peso expressivo na dramaturgia de Iñárritu, levando inclusive seus três primeiros filmes a serem denominados de “trilogia da morte”.

Para balizar esse estudo será utilizado método analítico baseado em concepções cognitivistas neoformalistas, principalmente as propostas por David Bordwell, complementado por valiosos aportes de críticos da cultura, tais como: Gilles Lipovetsky, Octavio Paz e Néstor Canclini.
Bibliografia

APPADURAI, Arjun. Modernity at large: cultural dimensions of globalization. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996.

BORDWELL, David. Narration in the fiction film. Madison: The University of Wisconsin Press, 1985.

__________. The way Hollywood tells it: story and style in modern movies. Berkley: University of California Press, 2006.

CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Ed USP, 2011.

DELEYTO, Celestino e AZCONA, María del Mar. Alejandro Gonzáles Iñárritu: contemporary film directors. IL-USA: University of Illinois Press, 2010.

LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A Tela Global: mídias culturais e cinema na era hipermoderna. Porto Alegre: Sulina, 2009.

MORA, Carl J. Mexican Cinema: reflections of a society 1896-2004. 3 ed. Jefferson, N.C.: McFarland & Company, 2005.

PAZ, Octavio. O labirinto da solidão. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

WOOD, Jason. The faber book of Mexican Cinema. London: Faber and Faber, 2006.