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  Título
O antecampo militante na disputa do visível
Autor
Paula Kimo
Resumo Expandido
Discutir a relação entre o documentarista e o acontecimento a partir de imagens de manifestações populares, tal como as jornadas de junho 2013, nos leva necessariamente à visitar os caminhos e analisar as forças que operam no momento em que as imagens foram produzidas. É olhar para a “circunstância de mundo” que incide na gênese das imagens documentais, termo definido por Fernão Ramos (1997); é olhar para as operações engendradas entre campo e fora-de-campo e que também engendram esses dois espaços. No ato fundador das imagens, independente de seus usos numa escritura fílmica ou não, há algo em comum: um sujeito que filma a partir do seu envolvimento direto na cena, uma câmera afetada pela instabilidade e pela tensão da tomada. Campo e fora-de-campo permeáveis, indissolúveis e por vezes indiscerníveis.

Nas imagens das manifestações populares, olhar para o antecampo é, em alguma medida, analisar o que está em disputa no ato mesmo de produção das imagens, é dizer da relação entre quem filma e o que é filmado, das circunstâncias que produzem imagens e são nelas percebidas, daquilo que dali transborda para o campo. É também um gesto politicamente interessado – uma vez que o sujeito no antecampo é o manifestante que foi para o embate nas ruas e lá permaneceu, filmando, resistindo à opressão policial, indo ao encontro da pluralidade da multidão. A exposição do antecampo nas imagens das manifestações, que aqui chamamos “antecampo militante”, institui uma esfera de disputas e rupturas, e com ela, todo um campo de visibilidade. Esse gesto que se configura no acontecimento - não apenas de conflito, de separação, mas também de compartilhamento – funda o comum. Nesse sentido nos propomos a pensar a exposição deste antecampo como um traço do ser-em-comum no cinema.

Para discutir o “antecampo militante” e entender tais relações encontramos no conceito de antecampo formulado por André Brasil (2013) algumas provocações. Para Brasil, o antecampo no cinema documentário “será um lugar, – marginal, mas constituinte – de permeabilidade entre o real e a representação” (BRASIL, 2013, p.579). Remetendo ao regime performativo das imagens a exposição do antecampo revela “um espaço ético que não deixa de ser recurso estilístico e recurso estilístico que não deixa de ser espaço ético” (BRASIL, 2013, p.578). A partir de análises do antecampo no cinema indígena e no documentário contemporâneo brasileiro, Brasil (2013) afirma que a exposição do antecampo é movida por duas demandas: o dialogismo e a reflexividade crítica.

Na primeira, uma disposição ao diálogo torna-se constituinte do filme. Na segunda há uma estratégia crítica e política de exposição da linguagem, do dispositivo fílmico, “seu avesso anti-ilusionista”, nas palavras de Brasil (2013). Pensando nas condições de “temperatura e pressão” às quais são submetidos os corpos que filmam uma manifestação, que filmam a repressão policial do lado dos manifestantes, as demandas de dialogismo e reflexividade crítica podem ser reposicionadas. Nas análises de Brasil (2013) tais demandas configuram estratégias constituintes do filme. No caso das imagens das manifestações são outras forças que levam o antecampo a se expor.

Para analisar os modos de exposição do “antecampo militante” iremos percorrer trechos de imagens exibidas na mostra Os Brutos. Realizada em Belo Horizonte pelo cineasta e midialivrista Daniel Carneiro a mostra começa em um chamado aberto nas redes sociais para envio de material filmado sem corte, sem edição e sem tratamento. A chamada de 2013 convocou imagens sobre as jornadas de junho, a de 2015 reuniu imagens a partir do tema mobilidade. Com o material recebido foram organizadas mostras das imagens na ordem cronológica dos acontecimentos filmados. Trazendo para a análise fílmica imagens das mostras Os Brutos de 2013 e 2015 pretendemos observar um tipo de fora-de-campo que está imiscuído no campo, exposto às forças que movem o acontecimento e incidem na gênese das imagens documentais.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. O olho interminável: cinema e pintura. São Paulo: Cosac Naify, 1993.

BRASIL, André. Formas de antecampo: performatividade no documentário brasileiro contemporâneo. In: Revista Famecos. Porto Alegre, vol.15, n.3, p.578-602, 2013.

_______________. Mise-en-abyme da cultura: a exposição do “antecampo” em Pi’õnhitsi e Mokoi Tekoá Petei Jeguatá. In: Significação. São Paulo, vol.40, n.40, p. 245-267, 2013.

MONDZAIN, Marie-José. “A arte das imagens como poder de transformação”. In: SILVA, Rodrigo; NAZARÉ, Leonor (org). A república por vir. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2011.

RANCIÈRE, Jacques. Povo ou multidões?” In: Urdimento – Revista de Estudos em Artes Cênicas / UDESC. Vol. 1, n.15, Out. 2010.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal…o que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008.

________________________. A imagem-câmera. Campinas: Papirus, 2012.