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  Título
Notas sobre ensaio e poesia em "Nostalgia da Luz"
Autor
Laila Melchior Pimentel Francisco
Resumo Expandido
Ao eleger o Atacama como ponto de partida e chave da realização de “Nostalgia da Luz”, Patrício Guzmán dá início ao intenso trabalho de escavação e arqueologia que caracteriza seu filme, explorando algumas das mais díspares camadas que este deserto pode evocar diante da história e do próprio território chileno. A originalidade e a beleza do filme convocam a reflexão acerca da potência do meio audiovisual para criar um tipo específico de poesia. Mais do que isto, convidam a pensar as operações propriamente poéticas do diretor. Esta apresentação busca apontar e comentar algumas perspectivas de enunciação que podem contribuir para colocar em questão certas relações entre o verbal e o visual, contemplando a tomada subjetiva que caracteriza o filme onde certas formas do ensaio e da poesia serão princípios determinantes.

Como por metáfora, ou como aviso, uma das primeiras imagens do filme mostra os círculos concêntricos na base da maquinaria de um telescópio, introduzindo um modo de funcionamento em que o próprio filme propõe incessantes paralelismos e similaridades em torno de um mesmo eixo. Abrange-se cada vez mais círculos no emaranhado das relações naturais e históricas que se conectam no território do Atacama: ponto de referência para o estudo da astronomia, da arqueologia e também um lugar onde o clima seco pôde conservar a matéria orgânica dos presos e torturados políticos mortos e ali despejados pela ditadura de Pinochet.

Guzmán aprofunda a relação entre estes círculos por meio da própria noção de ensaio que, de acordo com uma de suas definições é um gênero entre a literatura e a ciência que se revolta contra a obra maior. No contexto fílmico, o ensaio aponta para alternativas à maneira clássica de fazer documentário, marcando a contingência e a fragilidade. Guzmán vai nesse sentido quando anuncia a intuição que rege a "escritura" de seu filme: a de que o deserto contém segredos. Assim, convida o espectador a seguir com ele e seus métodos as pistas de que dispõe para descobri-los, ainda que, como indicam as falas de vários dos personagens que encontra ao longo do filme, ao segui-las, as perguntas só se multipliquem.

Descobrimos afinal que a história não pode ser tão facilmente descortinada, restando apenas a possibilidade do apelo à memória. Em sua vocação poética e ensaística, o filme funciona como uma espécie de aparelho de ver, como se fosse um dos telescópios instalados no Atacama, usa de certos métodos, mas também parece estar atento ao fato de que é necessário desconfiar destes. Sem garantias de encontrar a verdade, e consciente do esquecimento ao qual o país parece querer se prender, a narração de Guzmán, os testemunhos e as imagens que o filme dá a ver cumprem a função de guias ali onde é quase impossível descobrir algo ou decodificar as paisagens.

Os telescópios dos astrônomos não serão, portanto, as únicas máquinas de ver nesse deserto: as lentes do cinema de Guzmán lhe farão companhia, mas não parecem esperar encontrar mais do que pistas díspares, na medida em que o filme se desenrola sob o risco da memória, sem a possibilidade de recuperar o real. Ao se perguntar sobre o Atacama, território tão apropriado para se estudar o passado, o filme faz incursões, como se ruminasse sobre modos possíveis de lidar com o acontecido. Interessado na criação de fórmulas, procedimentos ou dispositivos poéticos para tanto, Guzmán compara o deserto com as superfícies extraterrestres: suas articulações de palavra e imagem contrastam e aproximam céu e solo, ossos e corpos celestes. Dimensões reais e imaginadas da história chilena se cruzarão sem que possamos distingui-las claramente. Dentre elas estão as imagens do universo e da poeira do deserto, tampouco facilmente distinguíveis: trata-se de imagens de um tempo embaralhado onde o passado se faz presente a todo o tempo, em cada relato e em cada uma das pequenas pistas que, por menores que sejam, resistem como um grito de voz coletiva.
Bibliografia

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