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  Título
Uma reflexão sobre desenhos animados e suas possibilidades na educação
Autor
ÉRIKA LOURENÇO DE MENEZES
Resumo Expandido
Este trabalho tem como proposta refletir sobre mudanças temáticas e estruturais apresentadas nos enredos dos desenhos animados de alta circulação, e ainda, possíveis reflexos em crianças e jovens em contextos escolares.

Entendemos o desenho animado como parte do que Coelho (1997) chama de cultura do cinema. O autor diz que esta cultura abarca não só o filme, mas todo o universo ao redor dele: as teorias, as derivações, os reflexos na cultura e no comportamento. Dentro deste conceito o desenho animado não é somente uma derivação, ele carrega consigo os elementos técnicos e componentes culturais. O desenho animado é ainda uma variação da animação, Milliet (2014) fala da importância do cinema na escola como arte e das potencialidades de se produzir e aprender com as animações neste espaço. As reflexões aqui apresentadas, assim como de Milliet, integram- se a debates realizados dentro do grupo de pesquisa CACE – Comunicação, audiovisual, cultura e educação.

Antes do surgimento das TVs por assinatura os desenhos animados eram transmitidos em canais de TV da rede aberta, em horários voltados para o público infantil. Em 1993 o Canal de TV Cartoon Network chega ao Brasil, com clássicos e novos desenhos, transmitidos 24 horas por dia. Surgiu assim uma nova maneira de se relacionar com os desenhos e, com isso, a necessidade de criar histórias que atraíssem um público cada vez maior e novas animações para preencher as enormes grades de programação desses canais.

Nos últimos anos, mudanças estruturas significativas ocorreram nos desenhos animados de alta circulação. Entre elas, destaco o surgimento de personagens principais em idade próxima aos espectadores (crianças e jovens), diálogos mais elaborados e extensos e desconstrução de modelos e padrões de senso comum e representatividade (família e gênero). É evidente que os desenhos animados ainda falham na representatividade étnica e social, e também criam mercados gigantescos vendendo tudo que pode ser estampado com personagem X ou Y. Mas não podemos negar a importância dessas mudanças e pensar em possíveis reflexos deste movimento nas relações estabelecidas no campo individual e coletivo destes sujeitos.

Pesquisas anteriores sobre a relação de crianças com os desenhos animados, apresentam elementos importantes para se pensar sobre a relevância destas mídias na construção de saberes, no desenvolvimento da percepção visual e como base mediadora para outros consumos. Fernandes (2005) apresenta a formação de sentidos individuais e coletivos capturados através das narrativas das crianças pesquisadas construídas através das mediações, apresenta também uma perspectiva de não passividade do consumo dessas mídias pelas crianças, aponta que crianças desenvolvem, através de suas experiências, preferências acerca do que irão assistir ou não. Salgado (2006) reforça a ideia de não passividade e fala sobre valores construídos dentro do consumo de desenhos animados. Pilar (2005) apresenta uma relação de amadurecimento no consumo de desenhos animados entre crianças de diferentes faixas etárias como um amadurecimento de leitura de linguagens distintas, desenvolvidas através do tempo e de múltiplas interações com seus espaços de convivência.

Pensando em todas as mudanças na forma de assistir desenhos e nas mudanças estruturais que vem surgindo fortemente nos últimos anos, que reflexos podem surgir para a educação? Estas mudanças podem modificar o espaço escolar? Já é possível perceber alguma transformação?

Os desenhos animados são os primeiros produtos audiovisuais consumidos por crianças e, ainda que em menor escala, são também consumidas pelo público jovem. Fazem parte de um saber construído fora dos muros da escola. Barbero (2006, p. 56) afirma que “a escola está deixando de ser o único lugar de legitimação do saber, (...) há uma variedade de saberes que circulam por outros canais, difusos e descentralizados”. Neste contexto fica a questão: como construir com esses novos saberes?
Bibliografia

COELHO, T. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. Iluminuras, 2000.

FERNANDES, A. F. As Crianças e os Desenhos Animados: mediações nas produções de sentidos. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2012.

BARBERO, J. M. Tecnicidades, identidades, alteridades: mudanças e opacidades da comunicação no novo século. In: Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad (2006): 51-79.

MILLIET, J. S. Pedagogias da animação: professores criando filmes com seus alunos na escola. 2014. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-graduação em Educação, Unirio, Rio de Janeiro, 2014.

PILAR, A. D. Sincretismo em Desenhos Animados da TV: O Laboratório de Dexter. Educação & Realidade, v. 30, n. 2, p.123-142. 2005.

SALGADO, R. G. Ser criança e herói no jogo e na vida: a infância contemporânea, o brincar e os desenhos animados. 2005. Tese (Doutorado em Psicologia). Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2005.