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  Título
TOM TOM, THE PIPER’S SON (1969-1971): ENTRE TEMPOS E MOVIMENTOS
Autor
Arthur Ribeiro Frazão
Resumo Expandido
Em Tom Tom The Piper's Son (EUA, 1969-1971) Ken Jacobs trabalha em cima de imagens de um filme homônimo que data do Primeiro Cinema. Em sua releitura, Jacobs filma a projeção da obra original de 1905 dirigida por Billy Bitzer. Após exibir o filme inteiro, Ken Jacobs inicia uma série de intervenções nas imagens de Bitzer. Sua ação consiste em alterar a duração e a velocidade dos planos, produzindo uma sensação de intervalos, assim como recortar e reenquadrar as imagens de forma a criar novos planos que revelam não apenas detalhes da ação dos personagens, como também denunciam particularidades da estrutura dos cenários, que não conseguíamos ver nos planos abertos do filme original. Ao reenquadrar as imagens, Jacobs permite uma aproximação que revela a própria constituição das imagens do curta de 1905: seus grãos.

O olhar de Jacobs expande as visões históricas sobre o Primeiro Cinema para revelar sua “infinita riqueza com uma ingenuidade inultrapassada” (RØSSAAK, 211, p.98). O filme propõe, em alguns momentos, uma experiência física, “os olhos às vezes doloridos têm que trabalhar com o jogo de luz e borrados” (RØSSAAK, 2011, p.100).

Peter Pál Pelbart em seu artigo O tempo não-reconciliado (2000) converge os conceitos de tempo do personagem Ts’ui Pen do conto Jardim dos caminhos que se bifurcam de Jorge Luís Borges com as teorias de tempo de Deleuze desenvolvidas a partir de sua leitura particular sobre os textos de Bergson. Em Tom Tom the Piper's Son (EUA, 1969-1971), Ken Jacobs constrói seu próprio jardim dos caminhos que se bifurcam. O gesto de reenquadrar as imagens nos possibilita assistí-las isoladas do plano original, e perceber as diferentes ações que no filme original acontecem de forma simultânea. Este procedimento produz um sentido de temporalidade complexo, onde presente, passado e futuro coexistem.

A alteração de velocidade que reproduz o filme quadro a quadro nos remete a origem dos estudos cinéticos como as experiências de Eadweard Muybridge. Quando Jacobs altera a velocidade da projeção produzindo uma câmera lenta, a ilusão do movimento é desfeita e nos faz ver o entre quadros. Uma tela preta que pisca entre cada fotograma projetado. Quando reenquadra as imagens do filme de 1905, o filme de Ken Jacobs pensa o movimento, a duração e o fotograma. Se os experimentos de Muybridge são hoje considerados como antecessores dos estudos que culminaram na invenção da imagem em movimento, o filme de Jacobs parece nos remeter à própria constituição do movimento no cinema, registrados quadro a quadro e formados pelos grãos evidenciados quando o diretor amplia as imagens até que fiquem disformes.

Antônio Fatorelli (2012) observa no exercício de experimentação com o tempo, presente na obra de diferentes artistas, uma aproximação entre o tempo fotográfico “estático” e a imagem em movimento do cinema. São situações, segundo Fatorelli (2012), em que as fotografias, por exemplo, podem ser “submetidas ao tratamento sequencial ou serial, editadas de modo a comportar um encadeamento e uma duração, de maneira muito semelhante aos fotogramas do cinema” e o cinema, ao fazer uso de recursos de desaceleração do movimento produz “uma reverberação na imagem, fazendo os contornos figurativos se esgarçarem ao longo do quadro” (FATORELLI, 2012, p. 176). O trânsito entre as imagem móveis e as imagens fixas, que Ken Jacobs realiza em seu Tom Tom the Piper's Son (EUA, 1969-1971), problematiza a própria definição convencional da experiência do cinema, produzindo uma obra híbrida entre a fotografia, o vídeo e o cinema.

Este trabalho propõe a análise e a discussão crítica das potencialidades que o método de remontagem praticado por Ken Jacobs em Tom Tom the Piper's Son (EUA, 1969-1971) abre para discutir a natureza e definições convencionais do cinema e suas possibilidades narrativas a partir do conceito de interstício e das relações com o tempo.
Bibliografia

BERGSON, Henri. Matéria e memória. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1990

BRENEZ, Nicole. e CHODOROV, Pip. Cartografia do found footage. In: Laica-Usp–v.3, n.5. 2014

DELEUZE, Gilles. Cinema 1 – Imagem-movimento. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985

__________. Cinema 2 – Imagem-tempo. São Paulo: Editora Brasiliense, 2005

FATORELLI, Antonio. Fotografia contemporânea: entre o cinema, o vídeo e as novas mídias. Rio de Janeiro: Senac, 2013.

FATORELLI, Antonio. Variações do tempo – mutações entre a imagem estática e a imagem-movimento. In: Imagens: arte e cultura. Editora da UFRGS, Porto Alegre, 2012, p.173-192.

PEL-BART, Peter. O tempo não-reconciliado. In: ALLIEZ, E. (Org). Gilles Deleuze: uma vida filosófica. Editora 34, São Paulo, 2000, p.85-97

RØSSAAK, Eivind. Acts of Delay: The play between stillness and motion in “Tom, Tom, The Piper’s Son”. In: PIERSON, M. e JAMES, D.E. e ARTHUR, P. (Orgs). Optic Antics: The cinema of Ken Jacobs. Oxford University Press, Nova Iorque, 2011, p.95-106