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  Título
Andrea Tonacci: 1966 – 1971
Autor
Priscyla Bettim
Resumo Expandido
A presente comunicação pretende abordar os três primeiros filmes de Andrea Tonacci, e tecer relações com os momentos da história política do país em que foram realizados: Olho por olho rodado em 1966, dois anos após o golpe militar; Blá, Blá, Blá lançado em 1968, meses antes do AI-5 ser instaurado; e Bang Bang, finalizado em 1971, num período de censura intensa no Brasil. Apesar de ficções, esses filmes podem ser considerados documentos históricos que refletem o sentimento e a juventude desse período. Tonacci realizou filmes radicais em plena ditadura militar, e não fez concessões estéticas ou narrativas por medo de represálias, se recusando a submeter seu processo de criação à censura imposta.

Olho por olho surgiria de uma pulsão quase inconsciente de descontentamento. Uma ânsia por violência sem saber ao certo para onde direcioná-la. No filme, um grupo de jovens perambulam dentro de um carro pela cidade de São Paulo, aparentemente sem um propósito definido.

Em meio a conversas corriqueiras, descobrimos que a personagem feminina serve como isca para atrair homens solitários para lugares vazios, para que o grupo possa espancá-los. Seria esta apenas uma ação perante um a certo tédio e a trivialidade de mais um dia na vida de jovens de classe média? Ou a violência, aparentemente gratuita, que parte dos personagens poderia ser interpretada como uma reação, mesmo que inconsciente, às privações de liberdade causadas pelo Estado sobre o indivíduo? Em nenhum momento questões sobre política ou a situação do país são abordadas propriamente, apesar do filme aludir a um niilismo profundo que parece emergir de alguma impossibilidade de ser.

Essa certa abdicação de Tonacci por uma abordagem mais diretamente política viria a mudar em Blá, Blá, Blá, obra realizada dois anos após Olho por Olho, e pouco antes de ser decretado o AI-5. Blá, Blá, Blá recebeu o prêmio de melhor média-metragem no Festival de Brasília, que aconteceu entre 25 de novembro e 2 de dezembro de 1968. O AI-5 foi decretado em 13 de dezembro daquele ano. Podemos dizer que o filme se tornaria por demais premonitório:



"Até 1968 ninguém (salvo quem mexia de fato com política) levara muito a sério o regime militar – no sentido que se imaginava tudo aquilo transitório. O AI-5 e o que veio depois mostraram que estávamos entrando em uma noite tenebrosa, da qual não se vislumbrava a saída." (Araújo, 2009, p2.)



Sobre o filme, viria a escrever Paulo Emílio Salles Gomes:



"A personagem emana de uma terra em transe e não seria de espantar que essa ficção acabasse adquirindo um valor de documento histórico a respeito da debilidade do poder civil brasileiro. A temática de Blá, Blá, Blá é porém mais ampla e ultrapassa o tempo em que a fita foi produzida. Num país sem crise e sem poder civil, a eloquência ingênua e delirante que o filme satiriza continua triunfante” (Salles Gomes, 1973)







Em janeiro de 1971 o embaixador da Suíça no Brasil foi libertado de seu cativeiro pelo grupo guerrilheiro VPR , em troca da soltura de prisioneiros políticos. Pelé se despediu da seleção de futebol brasileira em julho, e em setembro Carlos Lamarca foi assassinado na Bahia. Nesse ano Andrea Tonacci finalizou seu primeiro longa-metragem, Bang Bang.

Composto por longos planos-sequência que, segundo o diretor, poderiam ser exibidos em ordem aleatória, Bang Bang é protagonizado por Paulo César Pereio no papel de um ator que é perseguido por estranhos personagens, como um mágico e um ladrão cego. O filme é permeado pelo nonsense em uma narrativa que não progride, pelo menos no sentido da narrativa clássica, linear.

Se em Blá Blá Blá, Tonacci esvazia o sentido das palavras através de um discurso esquizofrênico, em Bang Bang há um esvaziamento dos personagens e situações. Em face ao absurdo do mundo e a atrocidade de um governo ditatorial, o filme oferece como resposta o nonsense.
Bibliografia

ARAÚJO, Inácio. No meio da Tempestade. Texto encontrado no livreto do DVD Bang Bang. São Paulo: Heco Produções, 2009.

FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. São Paulo: Max Limoad / Embrafilme, 1986.

_______________. Cinema de invenção. São Paulo: Limiar, 2000.

PUPPO, Eugênio; HADDAD, Vera (org.). Cinema Marginal do Brasil e suas fronteiras. Catálogo. São Paulo: CCBB, 2001.

RAMOS, Fernão. Cinema Marginal (1968/1973): a representação em seu limite. São Paulo: Brasiliense, 1987.

SALLES GOMES, Paulo Emílio. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

SALLES GOMES, Paulo Emílio. Os exibidores se esqueceram desse filme. Crítica publicada no Jornal da Tarde, de 21 de abril de 1973.

BRASIL, André; MESQUITA, Cláudia (org.). Dossiê Andrea Tonacci. In Revista Devires Vol 9, n2. Belo Horizonte: FAFICH, 2012.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico; opacidade e transparência. São Paulo: Paz e Terra, 2005.