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  Título
Peregrinos e devoção em CamminaCammina, de Emmano Olmi
Autor
Miguel Serpa Pereira
Resumo Expandido
Realizado em 1983, depois do grande sucesso de A árvore dos tamancos, de 1978, Camminacammina, de Ermanno Olmi, tem como inspiração as lembranças do cineasta quando criança e adolescente. O presépio de todos os anos, montado na casa da avó, gerou em Olmi uma sensação, um sentimento de religiosidade que sempre o acompanhou. Essa inspiração foi apenas a motivação. Para escrever o roteiro do filme, usou e consultou textos cristãos, hebraicos e mulçumanos. Deles, fez um amálgama que resultou numa espécie de alegoria sobre “a busca da verdade” (OWENS, 2001: 105). Na verdade, o filme se inicia com uma representação sacra, em Versilia. Itália. Trata-se de um grupo composto por pastores, camponeses e habitantes de uma aldeia que caminham na busca da gruta onde nasceu Jesus. Quando está tudo pronto, a ação se transfere para a Palestina, ano zero. O grupo de peregrinos é conduzido pelos sacerdote e astrólogo Mel, cujo discípulo Rupo protagoniza grande parte das ações seguintes.

Num primeiro momento, diante de uma recepção negativa e crítica que o filme teve do mercado especializado, Olmi pensou em refazer a obra. Porém, resolveu deixar o filme como estava como a sua versão definitiva, com sua inusitada proposta estética. O filme é, portanto, uma representação desse percurso pessoal para entender o mistério do nascimento de Cristo. Em sua narrativa complexa, Olmi privilegia o que ele chama de busca da verdade científica, religiosa e cultural do episódio. Não pretende responder a todas as questões sobre as quais agiu com a liberdade criativa dos artistas. Na sua visão, a história e as versões de fatos mostram apenas a ambivalência dessa disciplina. “Quanto mais passa o tempo, mais a humanidade adquire experiência e conhecimento e mais se deveria estudar a história para descobrir novos aspectos dos acontecimentos que foram registrados por órgãos oficiais de modo inamovível” . (MORANDINI, 2009: 62). É nesse contexto que aparece a questão da Devotio.

Centrada sob os Reis Magos e um conjunto de personagens que participam de caminhada até Belém, os fundamentos da Devotio estão colocados pelo filme. Significa dizer que Olmi, querendo ou não, abre caminho para a interpretação dessa prática religiosa. Tomás de Aquino, na questão 25, artigo 6, de sua Suma Teológica, indaga sobre Devem ser adoradas de algum modo as relíquias dos santos?. Mais adiante, na questão 36, nos artigos 5,6 e 7, fala da estrela e dos Reis Magos como manifestações da Devotio. No Dicionário Teológico Enciclopédico também se encontram fundamentos dessas práticas religiosas. O mesmo está explicado no Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, onde o termo devoção significa exatamente as ações pessoais, como forma de relação direta dos sujeitos com as relíquias e os santos que remontam ao início do cristianismo. O filme de Ermanno Olmi não apenas descreve essas relações entre o humano e o divino, como caracteriza, de forma inequívoca, as práticas devocionais.
Bibliografia

Bibliografia:

AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo. Nova Cultural, 1999.

APRÀ, Adriano (Org.). Ermanno Olmi: Il cinema, i film, la televione, la scuola. Venezia. Marsilio Editori, 2003.

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo. Edições Loyola, 2009.

BERTETTO, Paolo (Org.). Cinema e sensazione. Milano. Mimesis Edizioni, 2015.

DICIONÁRIO TEOLÓGICO ENCICLOPÉDICO. São Paulo. Edições Loyola, 2003.

DICIONÁRIO PATRÍSTICO E DE ANTIGUIDADES CRISTÃS. Petrópolis. Vozes, 2002.

MORANDINI, Morando. Ermanno Olmi. Milano. Il Costoro Cinema, 2009.

OWENS, Charlie. Ermanno Olmi. Roma. Gremese Editore, 2001.

SERRA, João (Org.). Ermanno Olmi: Uma excêntrica normalidade. Guimarães. Edições Il Sorpasso, 2012.