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  Título
A natureza selvagem: o processo criativo sonoro no filme Anticristo
Autor
Filipe Barros Beltrão
Resumo Expandido
O processo criativo no som do cinema abre inúmeras possibilidades para os artistas envolvidos na construção da identidade sonora do filme. As escolhas estilísticas, artísticas e técnicas irão definir a assinatura e a peculiaridade do som do filme. Neste artigo abordaremos como esse processo se desenvolve no filme Anticristo (Antichrist, 2009) do cineasta dinamarquês Lars von Trier. Este artigo é fruto da minha pesquisa doutoral a respeito do design de som na filmografia do diretor.

Anticristo é o primeiro filme da última trilogia lançada pelo diretor que foi intitulada: Depressão (Depression). Na obra em questão parece evidente que o diretor transporta para a tela os seus pesadelos, seu subterrâneo de cunho psicanalítico e seus dramas vivenciados no período de profunda depressão. Nesta perspectiva, Anticristo carrega em si um terror psicológico. abordando a condição humana explicitada nos subterrâneos da mente, em forma de cenas de mutilação genital e sexo explícito.

Anticristo se utiliza de uma estrutura recorrente dividindo em capítulos intitulados: Luto, Dor (Caos Reina), Desespero (Genocídio) e Os Três Mendigos (CREMASCO; THIELEN, 2010). Além disso, apresenta um prólogo e um epílogo para contar a história de um casal que se refugia numa floresta isolada chamada de Jardim do Éden, após a perda drástica do seu filho único. O casal interpretado Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg vivencia um drama existencial.

O filme surge da indagação do diretor a cerca da criação do mundo. Ele lança a possibilidade da natureza ser uma criação demoníaca (que ele nomeia “anticristo”) (SOERENSEN; CORDEIRO, 2010). Essa premissa irá nortear a parte sensitiva do filme, mostrando uma natureza cruel e selvagem, onde a força criadora é algo voraz e incontrolável. Durante o roteiro, é muito frequente a presença de animais no éden, em cenas de que mostram o lado mais brutal da sobrevivência na terra. Longe de ser uma natureza bucólica, com sons agradáveis e suaves, a perspectiva do filme era contrastar com esse direcionamento, apresentando sons mais impactantes, causando um certo desconforto.

Esse arcabouço conceitual foi o principal direcionamento para criar o design de som do filme. A partir de duas entrevistas, uma com com o designer de som e criador da trilha musical Kristian Eidnes Andersen; e outra com o foley artist Julien Naudin, podemos aprofundar detalhes da criação sonora.

Lars von Trier tinha demandas específicas para o som e dois conceitos foram fundamentais para a criação: 1) a apresentação de sons da natureza com uma certa crueldade e 2) sons internos do corpo apresentando a perspectiva da personagem principal.

Kristian Eidnes Andersen tem uma extensa colaboração com Trier, atuando desde 1996, e após se dedicar a edição e ao design de som assinou neste filme também a música. No entanto, esta é pouco tradicional e se baseia na utilização de drones criados a partir de sons da natureza.

Andersen (2016) afirma que passou muito tempo captando sons naturais, rochas, galhos, gravetos. Após essa captação sonora ele criava os samplers no computador e manipulava os sons estendendo a sua duração e diminuendo a sua altura, para que alguns sons soassem mais graves. O resultado foram trilhas que mostram a força da natureza e o poder da terra como algo incontrolável e envolvente.

A criação do foley por Julien Naudin guarda aspectos interessantes do seu processo criativo. No intuito de mostrar a percepção do sons externos pela personagem principal, ele criou a seguinte solução: enfiou um microfone da marca DPA pela cloaca de uma galinha e colocou perto dele durante as seções de gravação do foley (NAUDIN, 2015). O microfone captava o som interno dentro do animal, simulando uma percepção interior do corpo humano.

A investigação dos detalhes do processo criativo do filme, nos revelam como os desafios conceituas existentes no design de som se materializam praticamente no seu fazer prático no filme Anticristo.
Bibliografia

ANDERSEN, Kristian Eidnes. Entrevista com Kristian Andersen: o sound design de Lars von Trier. Recife, 21 de jan. 2016. Entrevista concedida a Filipe Beltrão.

COULTHARD, Lisa. Dirty Sounds: Haptic Noise in New Extremism. In: VERNALLIS, Carol; HERZOG, Amy; RICHARDSON, John eds. The Oxford Handbook of Sound and Image in Digital Media. New York: Oxford University Press, 2013.

CREMASCO, Maria Virginia Filomena; THIELEN, Iara Pichioni. Luto e melancolia em Anti-Cristo: um olhar clínico sobre as confissões do realizador. Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas, Florianópolis, v. 11, n. 98, p. 32-49, maio 2010.

NAUDIN, Julien. Entrevista com Julien Naudin: o trabalho de Foley Artist no filmes de Lars von Trier. Recife, 11 de nov. 2015. Entrevista concedida a Filipe Beltrão.

SIMMONS, Amy. Antichrist. New York: Columbia University Press, 2015.

SOERENSEN, Claudiana; CORDEIRO, Priscilla de Paula. “O Anticristo” de Lars Von Trier: simbologias e leituras. 2010.