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  Título
O mundo num grão: desejo de comunidade nos diários de Jonas Mekas
Autor
Carla Alice Apolinário Italiano
Resumo Expandido
No cinema diário de Mekas, cada filme integra uma série que compreende o todo de sua filmografia. Iniciada há mais de sessenta anos e ainda em plena atividade, sua trajetória (registrada em película) transitou da ascensão de Hitler à queda do World Trade Center, do vilarejo natal na Lituânia à Nova York que tomou como lar. Sua proposta artística evidencia o imbricamento entre práxis cinematográfica e vida cotidiana, em uma extensa carreira que abrange de instalações a vídeos para a web. "Ao caminhar entrevi lampejos de beleza" (2000) é seu mais longo "filme-diário" (JAMES, 2013), abarcando trinta anos de material em quase cinco horas de duração. Nele, o cineasta se volta para as imagens de seu núcleo familiar: seu casamento, a infância dos dois filhos, os encontros com amigos. O caráter de retrospecção de "Lampejos de beleza" é latente por resgatar o percurso de toda uma vida e aprofundar as marcas de estilo, as abordagens em relação ao mundo, e as questões de inclinação filosófica que permeiam esta filmografia. O filme se modula em termos de tropos, alguns proeminentes, outros mais opacos: da beleza, do paraíso, da felicidade. Ao aproximar imagens temporalmente distantes a partir da ordem (ou desordem) que lhe convém, o filme nos apresenta o transcorrimento de uma vida através de ações rotineiras, momentos fugidios, lampejos (glimpses) de beleza que mostram como o extraordinário integra o cotidiano de modo semelhante ao que convencionamos chamar de ordinário – algo que os filmes de Mekas vêm afirmando há décadas.

A cartela “Isto é um filme político” é diversas vezes mobilizada pelo filme. Contaminando as imagens domésticas que a acompanham, ela sugere um movimento de se voltar para o extracampo daquele universo tão encerrado em uma intimidade familiar. Esta reivindicação do político não aponta na mesma direção dos ideais de esquerda que orientaram muitas das propostas de engajamento político em meados do século passado. Ela aponta, por sua vez, para uma "utópica revolução das sensibilidades" (MOURÃO, 2013) que Mekas ajudou a construir. Tal revolução está ligada à influência dos escritos transcendentalistas (de Emerson e Thoreau) que o influenciaram, pautados por uma experiência, que, inseparável dos conceitos, prioriza a percepção eminentemente sensorial de relação com o mundo. Esta tomada de posição reside a nível pessoal, cada pessoa deve empreendê-la em sua vivência cotidiana. Talvez por isso o caminho trilhado por Mekas seja o da escrita de si, diarística. Mas o caminho também prevê uma etapa de coletivização no horizonte. Os círculos de amigos constantemente retratados nos filmes revelam a atuação do cineasta enquanto fomentador do agrupamento de artistas em torno de ideais visionários. De certo modo, trata-se de uma família que se escolhe (ALLARD, 1999). Esse grupos ecoam a vontade comum de transpor as rígidas barreiras que insistiam em separar a arte da vida. Assim, os diários de Mekas explicitam uma tentativa de não atomizar as experiências individuais ao torná-las comunitárias: de agregá-las em modos de proceder, visões de mundo, afetos e vivências. Tais práticas contornam, e reforçam, com leveza a insignificância do "nada" cotidiano que as une.

Propomos, então, identificar os movimentos que sustentam o modo de engajamento político de "Lampejos de beleza", tomando-o como “microcosmos” da proposta diarística do realizador. O ideal comunitário se transforma em forma fílmica através de agregamentos de imagens e sons, em parte por um procedimento regido pelo acaso, em parte pela intencionalidade do cineasta, que desenvolve conexões e reverberações conforme o que as imagens e as lembranças lhe revelam. A atenção é para o que os fragmentos possibilitam entrever de algo que os ultrapassa sem com isso perder seu caráter singular, "local". Como sugere a menção a William Blake em "Lampejos de beleza" (BLAKE, 1993, p. 77): identificar o universal no particular é ver "o mundo num grão", em um ou entre dois fotogramas.
Bibliografia

ALLARD, Laurence. Une reencontre entre film de famille et film expérimental: le cinéma personnel. In: ODIN, R. (org.). Le film de famille – usage privé, usage public. Paris: Méridiens-Klincksieck, 1999.



BLAKE, William. Auguries of innocence. In: Poesia e prosa selecionadas. Tradução Paulo Vizioli. São Paulo: Nova Alexandria, 1993.



EMERSON, Ralph W. Selected Essays. New York: The Penguin American Library, 1982.



JAMES, David E. Diário em filme/ Filme-diário: prática e produto em Walden, de Jonas Mekas. In: MOURÃO, P. (org.). Jonas Mekas. São Paulo: CCBB; Pró-reitoria de Cultura e Extensão Universitária – USP, 2013.



MOURÃO, Patrícia. "A 'ordem' do cinema – Jonas Mekas underground". In: Catálogo forumdoc.bh.2013. Belo Horizonte: Associação Filmes de Quintal, 2013.



SITNEY, P. Adams. Eyes upside down – Visionary filmmakers and the heritage of Emerson. Oxford: Oxford University Press, 2008.



THOREAU, Henry D. Walden – a vida nos bosques. Porto Alegre: L&PM, 2010.