Voltar para a lista
 
  Título
Autobiografia e autorretrato em As Praias de Agnès, de Agnès Varda
Autor
Tainah Negreiros Oliveira de Souza
Resumo Expandido
Um dos pensamentos mais imediatos que pode nos ocorrer sobre As Praias de Agnès é de que se trata de um filme em que Agnès Varda conta sua vida. Seguindo por esse caminho, seria possível acrescentar a essa definição o fato de que se trata de “um filme em que a cineasta conta sua vida através do seu cinema.” Esse adendo aparentemente simples nos leva a uma série de reflexões sobre este se tratar de um filme autobiográfico, autorretratístico e dessas possibilidades através da linguagem cinematográfica.

O ponto de partida da obra é o de relatar momentos da vida da cineasta e de encontrar ferramentas no cinema para fazê-lo. Essa empreitada envolve uma experimentação em torno de si, feita por Agnès Varda, em que se articula uma série de materiais que dizem de uma vida e de um modo de criar ou proceder como artista. São esses dois eixos de leitura que As Praias de Agnès nos oferece que nos guiam pelo debate sobre tema da “escrita de si”. Eles levam para caminhos diversos que não serão tratados como conflitantes mas complementares no esforço de revelar a obra. Tanto a abordagem autobiográfica quanto autorretratística são caracterizadas por elementos observados no filme. Não parecem se excluir em um primeiro olhar mas coexistir. Trata-se de lançar um olhar sobre o filme e perceber os lugares de convivência, fricção e de que modo as categorias no ajudam a apreciar a obra como um trabalho autoinscrição fílmica, e também as especifidades desse formato e do trabalho de Agnès Varda frente a esse tipo de desafio.

No contato com o filme, os estudos introdutórios e clássicos de Philippe Lejeune (2014) abrem caminho para pensarmos também a possibilidade da autobiografia no cinema. O autor se voltou ao tema mas são nos estudos mais específicos sobre audiovisual que a questão vai ser mais detalhadamente tratada.

Muitas dessas investigações levam à discussão sobre a caracterização também do autorretratismo no cinema. Alguns autores tendem a considerar uma convivência entre esse formato e a autobiografia em determinadas obras. Um nome fundamental dessa discussão é o de Raymond Bellour (1988), inspirado pelos estudos sobre autorretrato na literatura de Michel Beaujour (1991), o autor busca as particularidades desse modo de criação no cinema e muito ilumina o olhar voltado para o filme de Agnès Varda.
Bibliografia

BEAUJOUR, Michel. Poetics of literary self-portrait. New York University, 1991.

BELLOUR, Raymond. Autoportraits. In: Communications, 48, 1988. pp. 327-387.

BRUSS, Elizabeth. “Eye for I: Making and Unmaking Autobiography in Film”. In

CITRON, Michelle. Fleeing from Documentary: Autobiographical Film/Video and the “Ethics of Responsability.” in: WALDMAN, Diane. WALKER, Janet. (editors). Feminism and Documentary. University of Minnesota Press. Minneapolis, 1999.

DUBOIS. Philippe. A Imagem Memória ou a mise-en-film da fotografia no cinema autobiográfico moderno. Revista Laika. Vol.1. N.1. Junho de 2012.

LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico. Editora UFMG, 2014.