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  Título
Entre fatos e boatos: as aventuras de um mitômano no cinema silencioso
Autor
Ingrid Hannah Salame da Silva
Resumo Expandido
A trajetória de Eugênio Pignone, que posteriormente adotaria o pseudônimo cinematográfico “E.C. Kerrigan”, é abundante em peripécias e não se restringe aos filmes que dirigiu, mas abarca invenções fantasiosas, rumores, denúncias, versões e contravenções. Em 1921, Pignone chega a São Paulo e se faz passar por conde Eugênio Maria Pignone Rossiglione de Farnet, supostamente membro pertencente à nobreza italiana cujas proezas ao redor do mundo foram registradas na imprensa paulista seguindo uma formatação que ora tende ao fait divers, ora ao folhetim, ora ao melodrama. Talvez esse tenha sido seu traço mais marcante: a capacidade de se reinventar a cada situação e de alimentar tudo o que pudesse acrescentar elementos extraordinários a sua vida. Tratando-se de um mitômano, muitas das informações concernentes a ele estão no limiar da ficção.

A partir de 1923, Eugênio abandona o sobrenome “Pignone” e passa a se apresentar como “E.C.Kerrigan” e com esse nome assina a direção de cinco posados – Sofrer para gozar (Apa Filme, 1923, Campinas), Quando elas querem (Visual Filme, 1925, São Paulo), Corações em suplício (Masotti Filme, 1925, Guaranésia), Amor que redime (Ita Filme, 1928, Porto Alegre) e Revelação (Uni Filme, 1929, Porto Alegre) –, pelo menos quatro cinejornais – Ita-Jornal 1,2, 4 e 5 – e dois naturais – Glória à Virgem do Rosário e Campeonato estadual de futebol (todos produzidos pela Ita em 1927). Para realizar os filmes de ficção, o italiano recorreu a duas estratégias comumente utilizadas no período silencioso brasileiro: em primeiro lugar, à criação de escolas de cinema, as quais possibilitaram que ele reunisse técnicos, artistas e produtores; em segundo, à realização de documentários com evocações elogiosas a instâncias de poder. Em todos os processos observa-se uma mesma linha de ação: Eugênio cria a persona do diretor com experiência nos estúdios da Vitagraph e da Paramount (Hollywood!) e essa "farsa” é convenientemente aceita (ou rejeitada) pelo público e pelo críticos conforme sua produção pode (ou não) oferecer traços do cinema estrangeiro; em outras palavras, conforme seus filmes são capazes de encerrar os princípios do que hoje entende-se como cinema clássico hollywoodiano. Afinal, o italiano alimenta o desejo de uma cinematografia em formação, fomentado nas páginas de revistas como Para Todos, Selecta, Cinearte. No entanto, a carreira de Kerrigan, assim como a de muitos cineastas, não resiste ao advento do cinema falado, que encarece e complexifica a produção, distribuição e exibição de filmes.

O presente trabalho propõe-se a resgatar a biografia de Eugênio Pignone/Kerrigan sobretudo através da pesquisa nos jornais Fanfulla, Il Pasquino Coloniale e Correio Paulistano, e nas revistas Selecta, Para Todos e Cinearte.
Bibliografia

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