Voltar para a lista
 
  Título
Nem homem, nem mosca: O corpo cinemático de David Cronenberg
Autor
Lillian Bento de Souza
Resumo Expandido
A centralidade obsessiva no corpo humano e nas transformações sofridas pela carne levam os filmes de David Cronenberg a ocupar um lugar não apenas de representação deste, mas de criação de um novo corpo. Na mise en scène do diretor os corpos vibram, pulsam, gozam e são capazes de fazer vibrar, fazer gozar e fazer sentir sem, no entanto, serem corpos humanos. Por outro lado, o que surge na tela são configurações únicas que subvertem a organização corporal tal qual estabelecida na cultura ocidental. São filmes literalmente corporais, mas trata-se de corpos que, apesar de buscarem na carne a visceralidade e o grotesco, são compostos de luz e sombra e capazes de buscar nas referencias conhecidas as sensações e transformá-las. O espectador de Cronenberg vê deslocado o desejo, reconfigurada a sexualidade e questionada a enfermidade e a morte.

O corpo que Cronenberg propõe é o que Steven Shaviro (2015) chama de “Corpo Cinemático”, que é ao mesmo tempo seu sujeito, sua substância e seu limite. A presente análise está centrada no corpo proposto em The Fly (1986), que imerso no universo da Ficção Científica constrói narrativas que tratam de mudanças psicofisiológicas e da monstruosidade do corpo. No filme, o corpo apresentado é invadido por uma alteração interna de DNA, que se mescla com os genes de uma mosca, gerando um homem-mosca único, incapaz de fugir de sua condição monstruosa. Mesmo reconhecendo a alteridade entre homem e inseto, essa alteridade já não é palpável e a carne modificada já não volta ao seu estado anterior. A ameaça é interna e aniquilar o mal implica aniquilar esse novo corpo, nada sobra, nada resta, não há rotas de fuga nesse emaranhado tecnogenético.

O interesse aqui é investigar esse corpo que, filmado, coloca em evidência a capacidade do cinema de esvaziar significações e identidades e trabalhar a partir de semelhanças sem sentido ou origem. Assim, o corpo cinemático de Cronenberg é único porque, apesar de partir do referencial biológico é distante, inerte e, ao mesmo tempo, hiperbólico. O diretor coloca o corpo em primeiro plano em uma leitura literal e visceral da carne e dos duelos travados entre corpo e mente; corpo e natureza e corpo e tecnologia. No entanto, para além dessa leitura metafísica dos dualismos corpóreos temos um corpo hiperbolizado pelo aparelho cinemático e perpetuado na tela. “O cinema é um tipo de contato não representacional, perigosamente mimético e corrosivo, nos empurrando para a vida misteriosa do corpo.” (Shaviro, 2015: 297)

The Fly (1986) foi realizado quatro anos antes da divulgação do Projeto Genoma Humano, em 1990, que mapeou o DNA humano, e relata a história de um cientista envolvido com a criação de um aparelho de teletransporte de seres vivos. Seth Brundle (Jeff Goldblum), o cientista está tão entusiasmado com a própria invenção, que resolve testar a máquina teletransportando o próprio corpo, porém seus genes se fundem com de uma mosca que entra acidentalmente na máquina. Nos dias seguintes, o personagem começa a ganhar características físicas da mosca, sem deixar de agir sentimentalmente como humano, tornando-se um ser híbrido e único. Surge um corpo que não é humano e não é animal e está carregado de elementos do grotesco. Ao perceber que não seria possível recuperar sua humanidade, Brundle acredita que será o primeiro “inseto político” da história, em uma clara referência à obra de Franz Kafka, mas “o seu devir de mosca é um processo aberto, sempre puxando para cada vez mais longe de qualquer comunidade, identidade ou repouso”. (Shaviro, 2015: 173).

Desesperado com sua condição ele pede a sua companheira grávida, a jornalista Verônica Quaife (Geena Davis), que entre na máquina com ele para juntos tornarem-se um só ser, uma tríade. Porém, ela recusa e o cientista tenta se livrar da situação com um novo teletransporte. Seria a última esperança, mas ele se funde ao metal da máquina e passa a ter um corpo pesado demais que, assim como o fardo de viver como um monstro.
Bibliografia

BEARD, William. The Artist as Monster – The Cinema of David Cronenberg. Rev. and expanded. Toronto, CA: University of Toronto Press Incorporation, 2006.

FOUCAULT, Michel. A História da Sexualidade - A vontade de Saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhom Albuquerque - 1a ed. - São Paulo, Paz e Terra, 2014.

FOUCAULT, Michel. A História da Sexualidade - O Uso dos Prazeres. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque - 1a ed. - São Paulo, Paz e Terra, 2014.

GOROSTIZA, Jorge e PÉREZ, Ana. David Cronenberg. Madrid, ES: Humanes de Madrid, 2003.

GRÜNBERG, Serge. David Cronenberg. Paris, Cahiers du Cinéma – Éd. De l’Étoile, 1992.

GREINER, Christine. O corpo em crise – Novas Pistas e o Curto-Circuito das Representações. São Paulo: Annablume, 2010. (Coleção Leituras do Corpo)

NOVAES, Adauto (org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2003.

SHAVIRO, Steven. O Corpo Cinemático. São Paulo: Paul