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  Título
Análise fílmica, crítica imanente e tradições do ensaio.
Autor
Rubens Luis Ribeiro Machado Júnior
Resumo Expandido
Um filme pode sempre nos remeter a outro, que por sua vez nos faz lembrar um terceiro e assim por diante. A história das formas cinematográficas costuma oferecer aos historiadores, críticos ou cinéfilos um repertório sedutor para a comparação e a reflexão. Se os cinéfilos costumam entregar-se ao livre exercício de comparar, naquele afã agradável do simples colecionador de lembranças fílmicas, já entre críticos e historiadores não aconteceria exatamente o mesmo, dadas as exigências de método e ofício. Livres associações nem sempre são tão livres assim, nem exigem de fato às comparações. A atividade cinéfila, mesmo a mais despreocupada e brincalhona, entretanto, pode vir a ser um excelente campo de provas sobre o qual se construiria melhor a reflexão crítica dotada de perspectiva histórica. A designação da “história das formas cinematográficas”, em vez de simplesmente falar da “história do cinema” (ou em vez da variante “história das estéticas cinematográficas”), nos sugere que as formas possuem, no caso, uma força própria que pode autonomizá-las um tanto, diante do que viria a ser uma história dos conteúdos cinematográficos. O trabalho de Siegfried Kracauer trazia o interesse deste convívio mais complexo e problemático entre conteúdos e formas. Ele propunha para uma boa formação do crítico de cinema não só o tradicional estudo artístico, dos estilos cinematográficos, como também o das ciências humanas -sob a pena de não se ter muito o que discutir de relevante, daquilo que mais nos interessou numa imensa maioria dos filmes, repetidora da forma standartizada. Inversamente, os que só conhecem o lado social, também não saberiam muito como discutir um filme.

Noutras palavras, um filme não remete apenas a questões de cinema ou a outros filmes -mas, com efeito, ao que ele trata, à vida social, à história, arte, política, percepção, subjetividade etc. Ou seja, pouco se explicará da evolução das formas sem compreender os conteúdos com que elas lidam; e vice versa. Rarefeito nas últimas décadas, o hábito dos debates em cineclube que formou sucessivas gerações de críticos desde o período entre guerras, e teve na França o paradigma Peuple et Culture em que amadurece a geração de André Bazin e Chris Marker, configurou talvez um quadro bem diverso do contemporâneo, em que se discute menos e quase sempre num espaço acadêmico.

Admira-nos ver hoje em dia o quanto nos textos universitários brilham muito mais que as obras os conceitos; os quais deveriam aliás supostamente elucida-las. Não que as obras não sejam hoje escolhidas a dedo, ou não provoquem maior interesse. Os conceitos tampouco são escolhidos ao acaso. Muito ao contrário, não é qualquer conceito que se escolhe, são sempre de boa procedência, possuem grife, ou seja, alto valor de troca no ambiente acadêmico. Tal prática entretanto está longe de ser vista como pedante, mesmo ao ofuscar as obras a arrogância dos conceitos é quase invisível, e não só pelo brilho do olhar de quem fala, mas por aquele sobretudo dos ouvintes.

Ao esboçar uma análise, qualquer que seja o modo de aproximação, a articulação buscada entre objetividade e subjetividade integra o esforço ensaístico presente na prática da crítica que se quer imanente, isto é, buscando construir o discurso apoiado na experiência do filme. Da descrição sensorial mais espontânea ao comentário mais erudito, do sentimento estético mais experienciado e concreto à interpretação abstrata que se arvora mais precocemente, caberá à análise saber associar, incorporar a nossa intuição e fantasia à observação rigorosa da obra em suas formas específicas. As técnicas de análise fílmica que perdem de vista a dimensão espiritual da experiência estética merecem completa reelaboração. Um dos procedimentos diferenciadores da análise imanente face à análise técnica corrente seria aprofundar-se no detalhe para avaliar o conjunto e compreender aquela experiência estética em seu exercício singular.
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