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  Título
Narrativa e retórica na ficção científica: o caso de Gattaca (1997)
Autor
Cristiano Figueira Canguçu
Resumo Expandido
Na ficção científica, não é raro o pessimismo sobre o porvir tecnológico. Ironizada por Isaac Asimov como “Complexo de Frankenstein”, a desconfiança da noção de “progresso” científico-tecnológico fundamentou inúmeras narrativas do gênero, desde aquele romance de Mary Shelley: robôs que se voltam contra os humanos, monstros resultantes da radiação e apocalipses nucleares seriam apenas alguns dos resultados da húbris da civilização moderna, conforme imaginados nessas narrativas.

É possível distinguir, contudo, obras nas quais os perigos da tecnologia não são simplesmente parte da estória, mas que propositadamente fundamentam a estrutura narrativa com o objetivo de alertar o leitor/espectador sobre um perigo específico que viria do desenvolvimento científico. Esse corpus consiste numa espécie de parábola ou conto moralizante (“cautionary tale”), no qual fábula do filme assume a fórmula retórica do apelo ao exemplo, apresentando como tal um acontecimento hipotético que poderia acontecer no mundo real se não tomarmos cuidado com o desenvolvimento científico indiscriminado. Há, assim, uma moral negativa: não se pode deixar o mundo chegar no ponto X, representado no mundo ficcional relatado. Como, no entanto, seria esse corpus estruturado enquanto narrativa cinematográfica?

O filme Gattaca: Experiência Genética (Andrew Niccol, 1997) é um caso representativo desta articulação entre estrutura narrativa e mensagem retórica, em certa medida semelhante ao modo narrativo típico de certos filmes soviéticos e do roman à these (BORDWELL; SULEIMAN): um herói determinado e psicologicamente imutável enfrenta adversários moralmente inferiores, um confronto que deverá terminar com um triunfo absoluto, ou, no máximo, uma derrota temporária.

Diferentemente da vanguarda soviética, porém, os dispositivos retóricos não são dominantes, mas subsumidos à estrutura narrativa clássica hollywoodiana, transformando as ideias a respeito do mundo numa fábula com personagens individuais com características e metas bem definidas, bem como ações encadeadas por causalidade, reviravoltas e acontecimentos subsidiários: o perigo de uma sociedade gerida pela engenharia genética é materializado no drama de um indivíduo determinado, que precisa enganar a sociedade para lutar por um sonho que por ela lhe foi proibido, em um hipotético futuro. O equilíbrio foi violado pela sobreposição da ciência às paixões humanas e precisa ser restaurado pelo protagonista.

Mas a narração cinematográfica não se reduz à estória contada, devendo se considerar também o modo pela qual ela se dirige ao espectador. Na estrutura clássica a que se conforma Gattaca, também chamada de “narração erotética” (CARROLL), o filme produz suspense propondo perguntas e adiando respostas que são alternativas fechadas (resultados improváveis, mas moralmente desejáveis, versus resultados prováveis, mas moralmente indesejáveis): Vincent conseguirá realizar seu sonho de viajar ao espaço? Conseguirá enganar os seus colegas e o investigador? Terá um romance com Irene? Quem será o culpado pelo assassinato?

Há, portanto, uma relação fundamental entre características da narrativa, como a ordenação e as eventuais lacunas nos acontecimentos relatados, e os esforços dedutivos e interpretativos do espectador: em se tratando de um filme com forte componente de mensagem moral, Gattaca aposta na orientação de tais esforços por meio do feito-primazia (BORDWELL), com preâmbulo duradouro com narração over e flashback inicial que pré-interpretam a fábula e procuram focar a atenção do espectador no suspense a respeito dos eventos vindouros. Em filmes como Gattaca, a exposição concentrada (STERNBERG) no início prevê, de maneira compacta, todo o seu desenrolar.
Bibliografia

ASIMOV, I. A máquina e o robô. in: Visões de robô. Rio de Janeiro: Record, 1994.

BOOKER, M. K. The Dystopian Impulse in Modern Literature. Westport: Greenwood, 1994.

BORDWELL, D. Narration in the Fiction Film. Madison: Wisconsin U., 1985.

CARROLL, N. The Power of the Movies. in: Theorizing the Moving Image. Cambridge: Cambridge U., 1996.

______. Toward a Theory of Film Suspense. in: Theorizing the Moving Image. Cambridge: Cambridge U., 1996.

STERNBERG, M. Expositional Modes and Temporal Ordering in Fiction. Baltimore: Johns Hopkins, 1978.

SULEIMAN, S. R. Authoritarian Fictions: New York: Columbia U., 1983.

SUVIN, D. Theses on Dystopia 2001. in: Dark Horizons. New York: Routledge, 2003.