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  Título
Roberto Rossellini - depurações da visão
Autor
Nikola Matevski
Resumo Expandido
Depois de Vania Vannini, filme marcadamente romanesco, a viagem de Roberto Rossellini à Índia entre dezembro de 1956 e setembro de 1957 evidencia uma mudança de rumos em seu cinema. No encontro com uma cultura que lhe era desconhecida, manifesta-se também um novo tipo de visão: diante da imensidão de um país dividido entre a modernização que se anuncia em grandes obras públicas e os arcaísmos das tradições e seus mitos, ambos cercados pela presença de uma natureza misteriosa, o olhar que se dirige ao mundo recupera uma inocência que remete ao cinema dos primórdios.



Deixando-se levar pelo encanto do registro dos movimentos mais prosaicos do cotidiano, o filmar de Rossellini na Índia remonta a um tempo pregresso, um éden cinematográfico liberto do peso de sua própria trajetória – em suma, um tipo de deslumbre compatível com o olhar das vistas de Lumière (seguimos a deixa de Sandro Bernardi a partir de Eric Rohmer). Se esse périplo cultural-geográfico rumo ao desconhecido leva Rossellini a recuperar uma visão inocente, que registra a “criação do mundo” (Godard), ela também estabelece as bases para a eclosão do projeto pedagógico-histórico desenvolvido pelo cineasta nos anos 60-70.



Certo esgotamento na relação do cinema com as possibilidades revelatórias do real que ocorre neste momento, levando uma considerável porção de cineastas a retomar abertamente o interesse pela imagem e pela montagem (por exemplo, Jean-Luc Godard em Vento do Leste: “Não uma imagem justa, mas justo uma imagem”) Rossellini passa a traçar um caminho que irá substituir, na proposição de Adriano Aprà, o real dos fatos pelo real dos documentos. O cineasta italiano inspirou-se então em Comenius (Jan Amos Komenský) numa busca pela “visão direta”. Tal “visão” sugere a possibilidade de assimilação do cognoscível sem intermédios simbólicos das palavras e das artimanhas da linguagem. Segundo Comenius, estas prejudicam o aprendizado porque favorecem os mal-entendidos, levando os aprendizes a esquecer aquilo que se propunham a estudar. Isso seria evitado se fosse possibilitada uma “visão direta” como instrumento de apreensão – a busca por tal visão torna-se uma âncora no cinema pedagógico-histórico de Rossellini.



Nos filmes, isto se traduz num novo tipo de depuração do olhar que realiza, de um modo particular, novamente um retorno a uma condição precedente do cinema: grandes planos fixos com figuras hierarquizadas e a inexistência do fora de campo; a submissão do tempo ao pretérito, pois a duração não se curva ao transcorrer da ação presente, mas à demonstração de um conhecimento já acabado e sintetizado; a prevalência de planos-sequência; o uso de atores amadores como personagens desindividualizados e porta-vozes de discursos; contenção da expressividade na atuação, que é reduzida a gestos codificados e genéricos. Em suma, trata-se de recusas e depurações, de simplificações e condensações que visam o mostrativo e apostam no instrumento da visão despida e desimpedida como um meio de acesso direto ao conhecimento. É como se estes filmes se dirigissem a um espectador que não estivesse contaminado pelos vícios do cinema e fosse dotado de um olhar livre para explorar o momento de infância da televisão.



O último filme de Roberto Rossellini, Beaubourg, centre d’art et culture Georges Pompidou (1977) leva estes processos a um próximo nível, como se adotasse as premissas daquele espectador de olhar livre e se defrontasse, não com a clareza de um conteúdo histórico condensado a ser assimilado, mas com a arquitetura moderna do então recém-inaugurado museu, um edifício que contrasta com o antiga região parisiense (e que confere o título ao filme). Daí certo desconcerto da visão, que é embalada por um flanar em deslocamentos elaborados, com sucessivas aproximações e distanciamentos, assumindo um ponto de visão abstraído e descorporificado.



O objetivo deste estudo é discutir a depuração da visão que se opera entre India Matri Bhumi (1959) e Le Beaubourg (1977).
Bibliografia

BIBLIOGRAFIA



APRÁ, Adriano. Enciclopédia histórica de Rossellini. in: Roberto Rossellini e o cinema revelador. Lisboa: Cinemateca Portuguesa, 2007.



BERGALA, Alain (Org.). Roberto Rossellini: le cinema révélé. 2ª ed. Paris: Cahiers du Cinèma, 2005.



BERNARDI, Sandro. As paisagens de Rossellini: Natureza, Mito, História. in: Roberto Rossellini e o cinema revelador. Lisboa: Cinemateca Portuguesa, 2007.



COSTA, João Bénard. India Matri Bhumi. in: Roberto Rossellini e o cinema revelador. Lisboa: Cinemateca Portuguesa, 2007.



BENOLIEL, Bernard; BOURGUEOIS, Nathalie (Org.). India – Rossellini et les animaux. Paris: Cinémathèque française, 1997.