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  Título
LIMITES DO EU: AUTOBIOGRAFIA E AUTOFICÇÃO NO CINEMA DE JEAN EUSTACHE
Autor
Romero Fidelis de Souza Maciel
Resumo Expandido
A presente proposta visa conceituar a problemática da autobiografia e seus limites na obra de um autor que é pouco conhecido pelo grande público, mesmo que seu nome esteja presente na lista dos filmes mais importantes de todos os tempos, visto nas prestigiadas revistas Sight and Sound e Cahiers du cinéma, pela sua obra prima A mãe e a puta (1973). Natural do interior da França, Jean Eustache (1938-1981) é reconhecido pela crítica como um dos representantes da segunda geração da Nouvelle Vague francesa. Com uma carreira que compreende 12 títulos, alternando entre documentários, ensaios e ficções, esse realizador é detentor de uma filmografia dispersa e heterodoxa, na qual há uma impregnação de recortes das mais variadas estéticas do cinema moderno. No entanto, por mais que seus trabalhos estejam desconectados um dos outros à primeira vista, é possível perceber neles um inegável senso de subjetividade narrativa, um cinema inserido nas narrativas ditas autobiográficas, mas que se desprende daquele conhecido padrão autobiográfico strictu senso, cujos filmes há sempre um alter ego funcionando como espelho do diretor. Menos interessado narrar a história de sua vida, é curioso perceber como Eustache parece tomar distância de si mesmo para se deixar levar pelas identificações com o campo diverso das instâncias da arte, que vão desde o cinema, passando pelo ensaio, até a literatura. Consequentemente, tal gesto autobiográfico tende aos poucos a assumir contornos estéticos mais expressivos no qual a vida se torna uma grande obra de arte, para falar como Nietzsche (2000), em constante reconfiguração. De fato, é um conceito defendido por Leonor Arfuch no livro O espaço autobiográfico (2010), quando mostra que determinada configuração autobiográfica estaria menos afinada a uma vida em retrospecto, e mais aberto a identificações com modelos de heróis e variados esquemas narrativos vistos à exaustão na diversidade do campo artístico. Nesse sentido, se pensarmos no efeito distanciador que isso gera, um bom termo de comparação pode ser encontrado no livro de Michel Leiris, A idade viril (2005). Tal obra é um relato da Bildung erótica do narrador, que se beneficia de suas incursões na área da antropologia, cuja dicção se dá a perceber no tom, por assim dizer, ‘mineralizado’ da narrativa. Assim como Eustache, Leiris está menos interessado em recontar do início ao fim de sua vida, do que mapear um padrão de imagens recorrentes tomadas da arte (figuras mitológicas, sonhos e esquemas simbólicos) que dá estrutura à sua existência, sendo resignificadas ao longo de sua vida por notas, que retoma fatos escritos da primeira edição. Essa configuração se parece mais como uma montagem alegórica do que como uma narrativa autobiográfica stricto sensu, podendo ser visto como uma espécie de precursor borgeano dos heterogêneos esquemas narrativos de Eustache, no qual a intimidade de relatar a si mesmo dá lugar aos impasses criados pela reconstrução à distância. Ao romper com a configuração sistemática do eu em sua filmografia, pulverizando-o em filmes de dicção variada, Eustache cria, assim, novas possibilidades subjetivas, de forma que fique a cargo do espectador o trabalho de construir a teia de referências autobiográficas. Para compreender como isso é possível, utilizaremos como fundamentação teórica dois estudos sobre a autobiografia. Ao contrapor os autores Philippe Lejeune e Paul De Man indicaremos como as narrativas de Eustache estão mais em consonância com os questionamentos do autor de Alegorias da Leitura. Em leituras baseadas em textos como Autobiografia como Des-figuração, mostraremos como o gesto autobiográfico é um mecanismo que nunca se fecha, permitindo ao autor construir e desconstruir o sujeito como bem entender. O eu seria apenas um ponto de partida para a criação artística, possibilitando metáforas e alegorias variadas. Entender de que maneira Eustache se representa nesse campo autobiográfico é o que propomos realizar nesse seminário.
Bibliografia

ARFUCH, Leonor. O espaço autobiográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Trad. Paloma Vidal. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010.



BAECQUE, Antoine de. Cinefilia: a invenção de um olhar, história de uma cultura. Trad. André Telles. São Paulo: Cosac Naify, 2010.



BARTHES, Roland. O Rumor da Língua. Trad.Mário Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.



DE MAN, Paul. Autobiography as De-facement. In: The Rhetoric of Romanticism. New York: Columbia University Press, 1984 .



GASPARINI, Philippe. Autoficção é o nome de quê? In: Ensaios sobre a autoficção. Trad.Jovita Maria Gerheim Noronha. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014



LEIRIS, Michel. A idade viril. São Paulo: Cosac & Naify, 2005.



LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



NIETZSCHE, Friedrich. A gaia a ciência. Trad. Alfredo Margarido. Lisboa: Guimarães Editores, 2000.



PHILIPPON, Alain. Jean Eustache. Paris: Cahiers du Cinéma. 2005.