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  Título
Dimensões existenciais e políticas em São Paulo S.A (Person, 1965)
Autor
Juliano Rodrigues Pimentel
Coautor
Guilherme Fumeo Almeida
Resumo Expandido
A proposta de análise tem como tema os atravessamentos entre narrativa e contexto histórico. Ao refletir sobre as dimensões políticas e existenciais percebidas no filme São Paulo S/A (Sergio Person, 1965), tenta-se responder como as noções de "trabalho" e "vazio" impactam o fluxo narrativo. Desta maneira, o objetivo é problematizar uma ideia de sintoma sócio-histórico articulado pela narrativa, que, neste caso, se desdobrou em duas questões principais, uma de ordem política, relacionada ao homem público, e, a outra, de ordem existencialista enquanto um conflito de motivações do personagem principal.

O que justifica a abordagem e o recorte empírico é o ineditismo da articulação entre as questões existencialistas e políticas neste período do cinema brasileiro, algo que se reflete no estado da arte sobre o Cinema Novo. Também busca-se justificativa através da valorização de um arcabouço teórico que dê conta do impacto político das narrativas ao criarem um panorama histórico da época em que se inserem. A reflexão teórica se dá através de arguições e conceitos de Sennett, no que tange o declínio do homem público, Sartre e comentadores, como fundamentação da perspectiva existencialista.

Richard Sennett (2014) vê o fenômeno contemporâneo de hipervalorização da intimidade como um sintoma da demanda por liberdade surgida no século XVIII, esvaziando a esfera pública e estimulando as pessoas a buscar proteção em pequenos grupos, como a família. Dessa forma, a vida pública teria sido substituída por uma sociedade intimista incapaz de reconhecer a confusão entre comportamento público e personalidade privada, estimulando o narcisismo e a frieza nas relações interpessoais.

Ao nos conectarmos empaticamente com o protagonista de São Paulo S/A, podemos perceber que suas ações e motivações, enquanto motores narrativos, são de uma ordem existencial. Esta noção se ampara pela arguição de Sartre (2007) que propõe que o quietismo da alma e a angústia intermitente fazem parte do processo de aceitação da condição humana, e que o pessimismo e a confusão do desespero frente ao vazio são inerentes ao próprio existir. A aceitação e responsabilidade por este esvaziamento das relações e da própria vivência, para Sartre, se configuram como chave para a condução genuína da própria vida. Essa vida pública em declínio geraria indivíduos autocentrados acometidos pela angústia e confusos pelo vazio existencial que Sartre considera partes inerentes da condição humana.

Esta proposta é um braço comum de outras duas investigações, a primeira, uma pesquisa de mestrado, financiada pela CAPES, que analisa a representação da política e dos políticos nas minisséries brasileiras a partir do exemplo de O Brado Retumbante (Euclydes Marinho, 2012), a segunda, uma pesquisa de doutorado que faz uma revisão crítica das marcas de estilo do Cinema Novo, ambas desenvolvidas pelos autores junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM-UFRGS).
Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história. 2a. São Paulo, SP: Companhia de bolso, 2014.

JOST, François. Do que as séries americanas são sintoma? Porto Alegre: Sulina, 2012.

SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público. Rio de Janeiro: Record, 2014.

SARTRE, Jean Paul. Existentialism is a humanism. New Haven, EUA: Yale University Press, 2007.

XAVIER, Ismail. O cinema brasileiro moderno. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2001.