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  Título
Reinventando a precariedade: apontamentos sobre o cinema de frangagem
Autor
Txai de Almeida Ferraz
Resumo Expandido
O advento do digital modificou sensivelmente a forma de se produzir cinema no Brasil. Desde então, a produção no país se viu atravessada por uma leva de coletivos que desafiam a estrutura tradicional do cinema misturando noções de trabalho com redes de afeto nas quais é comum acumular e dividir funções. Embora não configurem um movimento coeso, os filmes produzidos por esses grupos possuem como característica recorrente afastamento de um "pensamento industrial do cinema brasileiro" (BERNARDET, 2009). Termos como "cinema pós-industrial" (MIGLIORIN, 2011) e "cinema de garagem" (IKEDA, 2014) têm sido empregados nas recentes discussões e estudos para tentar dar conta desta nova e variada produção.

Em meio a esse cenário, encontramos os curtas-metragens que nos servem como objetos nesta comunicação: Casa Forte (Rodrigo Almeida, 2014) e Virgindade (Chico Lacerda, 2015), ambos produzidos pelo coletivo pernambucano Surto & Deslumbramento. O grupo, conhecido por abraçar elementos como a paródia e o camp, se autodenomina "cinema de frangagem", em um jogo de palavras com os termos "brodagem" (modo de produção cinematográfica voltado para arranjos coletivos) e "frango" (forma usualmente pejorativa de designar homossexualidades na gíria pernambucana). Suas produções se distanciam de uma lógica industrial não apenas em sua forma de organização, mas também na rejeição de previsibilidade entre os momentos de concepção e de execução das obras, convertendo o processo de busca e de construção do próprio filme em um mote narrativo poderoso.

Em Casa Forte, o diretor Rodrigo Almeida deseja buscar reminiscências do passado escravocrata do Recife e decide, sem planejamento prévio, gravar fachadas de edifícios com referências coloniais em um bairro nobre. Essa busca do realizador delimita os caminhos de uma experiência que não prioriza seu produto finalizado em detrimento de seu processo de construção. O filme é assim majoritariamente constituído de sua própria pesquisa, ou seja, de um ato que poderia ser apenas meandro para o roteiro de um documentário tradicional, mas que neste caso serve à narrativa de forma dupla: é ao mesmo tempo momento de preparação e finalidade da obra em si.

Já em Virgindade, há uma apropriação de aspectos biográficos do realizador Chico Lacerda na construção de uma subjetividade que controla a narrativa em primeira pessoa. No filme, o diretor-protagonista está fortemente presente através de uma narração em off que revisita imagens de seu bairro e rememora a descoberta de sua homossexualidade. A exposição dessa intimidade confunde intencionalmente o espectador e confere vitalidade à narrativa: há ou não há elaboração ficcional em cima do que é dito? É ou não é documentário?

A reinvenção do real é a matéria-prima desses filmes, que parecem ter em sua dimensão processual uma aliada para promover dissensos e se opor à hegemonia do cinema industrial: "A sociedade do espetáculo triunfa, mas uma parcela obscura do espetáculo mina o espetáculo generalizado" (COMOLLI, 2008, p. 179).

Podemos entender estas produções como tentativas de resposta a um questionamento colocado por diversos outros grupos realizadores de cinema no Brasil hoje: "Que possibilidades existem, para além de um modelo industrial, pretensamente previsível e dependente do Estado, na produção de curtas-metragens no país?". Analisar essa produção é obrigatoriamente pensar em suas condições de realização. A experiência dá o tom da dimensão expressiva das obras, imbricando processos de interação que reinventam a precariedade das produções e desviam as narrativas para dinâmicas de indeterminação, descontrole e abertura para o real. A reflexão sobre o audiovisual surge então como uma aliada para superar as contingências práticas, de forma a partilhar experiências entre os coletivos e criar novos mundos, otimizando e gerindo outras possibilidades de vida na imagem.
Bibliografia

BERNARDET, Jean Claude. Cinema Brasileiro: propostas para uma história. Segunda edição revista e ampliada. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009. Original publicado em 1979.



BRASIL, A. Formas do antecampo: performatividade no documentário brasileiro contemporâneo. Revista Famecos, Porto Alegre, v. 20, n. 3, pp. 578-602, set./dez. 2013.



____________. Formas de vida na imagem: da indeterminação à inconstância. Revista Famecos, Porto Alegre, v. 17, n. 3, p. 190-198, set./dez., 2010.



COMOLLI, Jean-Louis. Ver e Poder: A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



IKEDA, Marcelo. "O cinema de garagem: desafios e apontamentos para uma curadoria em construção". IKEDA, Marcelo, LIMA, Dellani (orgs.). Catálogo da mostra Cinema de garagem. Rio de Janeiro, 2014.



MIGLIORIN, Cezar Avila. Por um cinema pós-industrial: Notas para um debate. Cinética. Fevereiro de 2011. .