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  Título
Woody Allen e o espaço do escritor no cinema
Autor
Maria Castanho Caú
Resumo Expandido
Apesar de extremamente recorrente no cinema, o escritor parece um arquétipo de personagem pouco afeito ao universo cinematográfico, como já colocam autores como Paul Arthur e Judith Buchanan. Por conta da natureza do seu ofício, aquele que se entrega ao fazer da literatura é alguém que precisa estar conectado ao mundo exterior e aos dilemas e contradições próprios de sua época para ser capaz de retratá-los e transcriá-los (assim Shakespeare, por exemplo, é chamado de soul of the age desde Jonson), mas que permanece inteiramente apartado do convívio social quando se entrega ao seu processo criativo (preso no ambiente de um escritório isolado, mais ou menos insalubre, em que a solidão é uma constante e, muitas vezes, um desejo arrebatador).



Por conta dessa natureza ambivalente que se funda sobre uma territorialidade particular, em que os espaços íntimo, social e de trabalho se veem em perpétuo conflito, busco compreender a forma como o meio cinematográfico retrata o lugar do escritor – tomado aqui não só como um ambiente físico, mas como um universo de criação mais amplo, esse recinto físico e intelectual que Virginia Woolf aponta como essencial ao fazer literário. Esse espaço se faz presente também nas relações humanas retratadas e nas opções estéticas e narrativas adotadas, que evidenciam e mapeiam a posição ambígua do sujeito que escreve (agente apaixonado versus observador algo distanciado), e que surgem mesmo quando o processo de escrita não é de fato encenado, permanecendo apenas como um traço distintivo do caráter e dos objetivos dos personagens.



Quando, diferentemente, os cineastas escolhem encenar a escrita, precisam lidar com a imaterialidade do processo literário (que não se presta aos olhos, nem se desvela quando a caneta corre sobre o papel ou os dedos sobre o teclado, mas é tanto mais uma atividade de pensamento indetectável e irreproduzível em sua plenitude – e aqui lembramos que o cinema falha sempre que retrata o pensamento como puro discurso verbal). De fato, a atividade do escritor parece insondável e pouco sintetizável em imagens.



Sendo assim, é intrigante que esse personagem esteja tão presente no cinema contemporâneo e seja uma escolha constante de cineastas como o norte-americano Woody Allen, que no entanto não trabalha com adaptações literárias – ou talvez seja perfeitamente natural, dada a importância da palavra (em particular, do discurso verbal) no cinema de Allen. A predileção do diretor pela figura do escritor, extremamente recorrente ao longo de sua obra, e a relação entre essa escolha e a afinidade das suas narrativas com o universo mais amplo da literatura são os eixos de investigação a guiar o trabalho. Busco entender como o cinema de Allen constrói o espaço do escritor enquanto ambiente-chave na estrutura narrativa e a maneira como o cineasta escolhe encenar o fazer literário enquanto ato cênico e simbólico de fundamental importância.
Bibliografia

ARTHUR, Paul. “Writers as figures of cinematic redemption”. In: STAM, Robert & RAENGO, Alessandra (orgs.). Literature and film. New York: Blackwell Publishing, 2005.

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

BUCHANAN, Judith (org.). The Writer on Film: Screening Literary Authorship. London: Palgrave Macmillan, 2013.

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SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? São Paulo: Editora Ática, 2004.

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WOOLF, Virgina. Um teto todo seu. Trad.: Bia Nunes de Sousa. São Paulo: Tordesilhas, 2014.