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  Título
Nos cursos visuais do Velho Chico: direção de arte e imagem mítica
Autor
Milena Leite Paiva
Coautor
Dorotea Souza Bastos
Resumo Expandido
Escrita por Benedito Ruy Barbosa e dirigida por Luiz Fernando Carvalho, a telenovela Velho Chico (Rede Globo, 2016) é uma obra audiovisual marcada por uma visualidade mítica. Do trânsito nas águas do Rio São Francisco às nuances sociais, culturais e religiosas do povo baiano, as suas cenas traçam, por contornos intimistas, os recortes visuais de espaços, luzes e cores do nordeste brasileiro, em um arranjo sensorial entre a materialidade cênica e o desenho da luz. Na obra, a composição dos planos aponta para um cuidadoso trabalho de arte e de fotografia direcionado a uma experimentação da linguagem televisiva e por proposições cênicas que transitam entre a poesia visual, o anacronismo, a ludicidade, a caricatura e a ironia visual - traços estéticos recorrentes nas produções de Luiz Fernando Carvalho.



Na diegese construída em Velho Chico, a Bahia, contexto social e geográfico da trama, é transcriada visualmente por elementos ficcionais baseados em aspectos estéticos oriundos tanto dos costumes e expressões populares quanto das paisagens, visualidades e materialidades do contexto social retratado. Mas, de qual Bahia falam essas imagens? É interessante pontuar que os espaços e as personagens diegéticas da novela mesclam tanto referências de elementos característicos da região do semiárido baiano até de figuras, cores e arquiteturas típicas da região do recôncavo, o que se evidencia na escolha das locações, dos figurinos, dos objetos cênicos e da caracterização. Entende-se que há, portanto, uma proposta cênica de traçar uma representação do sertão nordestino e da sua cultura visual alinhada a uma imagem mítica da Bahia – a Bahia do coronelismo, da cultura negra, do samba de roda e do sincretismo religioso. Todo o universo diegético da obra é assim concebido de forma a alimentar um imaginário nacional acerca do Nordeste e da baianidade, estando os elementos da arte alinhados conceitualmente a esta proposta da encenação.



Neste sentido, este trabalho pretende, a partir de uma investigação sobre as escolhas estéticas do aspecto visual de Velho Chico, realizar uma análise das imagens da novela para definir nas narrativas particulares dos elementos da arte uma relação simbólica entre visualidade e narrativa, e apontar as suas interferências estéticas na estruturação dos planos. Com base nos estudos de Aumont (1993; 2004) e Flusser (2011) acerca das especificidades da imagem e partindo do entendimento do “lugar” da direção de arte na construção do estilo do diretor Luiz Fernando Carvalho, esta análise é um desdobramento de um projeto de pesquisa dedicado a um estudo sobre o papel da direção de arte na construção da visualidade no audiovisual, com foco nas projeções estéticas e discursivas da função na composição da imagem e na sua relação formal com a estrutura dramática do texto. A pesquisa tem como corpus o conjunto da obra do diretor Luiz Fernando Carvalho - em suas particularidades conceituais e produtivas -, cujo processo criativo aponta para a valorização e a potencialização expressiva dos elementos da arte, manipulando-os como vetores de significados na superfície da visualidade da cena.



Entendemos neste trabalho que o perfeccionismo e a perspectiva autoral das obras do referido diretor seja determinante na concepção do projeto de arte e das minúcias compositivas das imagens. Trabalhando com diretores de arte ou atuando diretamente na coordenação da equipe de arte, o fato é que nas suas produções o pensamento da arte se define como um fluxo narrativo essencial no audiovisual. Em Velho Chico não há uma creditação à direção de arte. Nesta produção, Carvalho assina tanto a direção quanto a direção artística, o que abre espaço para uma discussão acerca das suas perspectivas projetuais no contexto da indústria televisiva brasileira.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. A imagem. Campinas, SP: Papirus, 1993.

_____________. O olho interminável: cinema e pintura. Cosac e Naify: São Paulo, 2004.

BLOCK, Bruce A. A narrativa visual: criando a estrutura visual para cinema, TV e mídias digitais. Tradução: Cláudia Mello Belhassof. São Paulo: Elsevier, 2010.

BUTRUCE, Débora Lúcia Viera. A Direção de arte e imagem cinematográfica. Sua inserção no processo de criação no cinema brasileiro dos anos 1990. 2005. 227f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Imagem e Informação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2005.

CARDOSO, João Batista Freitas. Cenário televisivo: linguagens múltiplas fragmentadas. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2009.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Annablume, 2011.

HAMBURGER, Vera. Arte em cena: a direção de arte no cinema brasileiro. São Paulo: Editora Senac São Paulo; Edições Sesc São Paulo, 2014.