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  Título
“É preciso atrever-se a pensar”: montagem e engajamento em Contestação
Autor
Luiz Garcia Vieira Junior
Resumo Expandido
O curta metragem Contestação (1969) de João Silvério Trevisan é ainda pouco conhecido na cinematografia nacional. Caso raro de reemprego de imagens no Brasil em sua época, o filme foi construído em quase sua totalidade a partir de imagens de telejornais provenientes de todo o mundo. A urgência e condições precárias de sua finalização refletem a pior fase da história republicana brasileira, o momento de maior repressão da ditadura militar estabelecida com o golpe de 1964 e promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5). “Filme de guerrilha”, conforme seu diretor, permaneceu praticamente inédito desde o ano de sua realização, retornando às telas somente em 2013 após 44 anos de “exílio”.



Contestação apresenta ainda uma intrincada história, tendo como cenário a efervescência política e a contracultura da década de 1960. Sua gênese encontra-se associada a outro curta de Trevisan, O&A (1967), também de reemprego, realizado para a peça homônima de Roberto Freire, encenada no TUCA (Teatro da Universidade Católica, SP). Ambos possuem a mesma raiz, utilizaram em grande parte os mesmos materiais em suas construções. A montagem da peça, entretanto, foi perseguida, e por fim inviabilizada pelas ações dos agentes DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).



Esta comunicação propõe rever a trajetória singular de Contestação como um caso brasileiro de reemprego de material previamente filmado. Apresentar os elementos heterogêneos constitutivos - imagens, grafismos, ruídos e música -, trabalhados por Trevisan na operação de montagem como proposta disponibilizada ao engajamento do espectador. Entendendo engajamento como mobilização por uma causa, mas que não se inscreve numa questão institucional, nem uma plataforma política pré-existente, mas antes de tudo, de “invenção formal” e “objeção visual” (Brenez, 2010, 2015). Como o próprio diretor atesta, “um filme de observação crítica” da luta.



O filme, que não apresenta nenhum comentário narrado, utiliza basicamente a justaposição de imagens e sons para criar uma estrutura modular ao longo de seu desenvolvimento. Desta maneira abre um espaço de confrontações entre as imagens acessadas para que seu espectador exercite o “poder de associação e dissociação” (Rancière, 2012), examine e elabore conexões entre os blocos que apresenta. Um exercício de contrainformação que se tornou possível a partir de novas associações de imagens. Uma montagem que não conclui ou enclausura, mas “complexifica nossa apreensão da história”, que permite aceder às “singularidades do tempo e, por conseguinte, à sua multiplicidade essencial” (DIDI-HUBERMAN, 2012). No caso de Contestação, multiplicidade que extrapola sua localização histórica e reverbera em nosso contexto atual.
Bibliografia

BRENEZ, Nicole. L’objection visuelle. (In) Le Cinema Critique – De l’argentique au numérique, voies et formes de l’objection visuelle. (Org.) Brenez, Nicole. Publications de La Sorbonne, Paris, 2010.

BRENEZ, Nicole. Sources, richesses et enjeux du cinéma engagé - La fabrique du savoir - ACAP - Savoirs TV - La WebTv. Disponível em: .

DIDI-HUBERMAN, Georges. (In) ALLOA, Emmanoel (org.). Pensar a Imagem. Autentica, São Paulo, 2015.

RANCIÈRE, Jacques. A Revolucao Estetica - a_revolucao_estetica_jacques_ranciere.pdf. Disponível em: .

TREVISAN, João Silvério. Entrevista por e-mail: sobre o filme Contestação (1969), 2016.

TREVISAN, João Silvério. Revista Zingu! - Dossiê Trevisan. Disponível em: .