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  Título
Vir/Ver/Ou/Vir: O cinema superoitista em Torquato Neto
Autor
moema pascoini
Resumo Expandido
Torquato Neto foi o artista das transições: Poeta, letrista, jornalista, ator, realizador. Durante a sua vida transitou pelos diferentes meios, ocupando espaços e dissolvendo barreiras. Se a palavra era escrita, ele fluía entre os gêneros e, se a expressão era arte, o cinema foi um dos caminhos.

Torquato não chegou a terminar a faculdade de jornalismo, porém em 1971 passa a trabalhar escrevendo a coluna “Geléia Geral”, no Jornal da Manhã, agindo como elemento impulsionador de uma cultura às avessas. Nesse momento não era apenas o seu trabalho que estava em foco, durante a sua atuação como jornalista seu esforço também estava posto em divulgar o trabalho de parceiros e colegas que, assim como ele, se propunham a estar no front da resistência cultural brasileira durante as décadas de 1960 e 70.

No livro “Todas as horas do fim do mundo”, Gláucia Machado defende que Torquato atuaria como um estrategista cultural ao estimular a criação através dos seus escritos. “Ocupar espaços é a tese defendida por Torquato quando escreve pra jornal, compõe na MPB, atua em filmes, divulga o trabalho de outros artistas ou propõe que as pessoas saiam às ruas filmando ou fotografando as cenas brasileiras” (MACHADO, 2005, p. 22).

Em 1971, Torquato escrevia “o cinema brasileiro não morreu nem morrerá: morreram os trouxas: quem não inventa faz super-produções estúpidas [...] suicida são eles: transemos em superoito: nossa curiosidade não tem limites” (NETO, 1982, p.77). O cinema estava presente na geléia geral torquatiana e seria então com a bitola super-8 que ele encontraria uma possibilidade de filmar.

Sem a necessidade de um conhecimento técnico prévio para a sua utilização, a bitola se enquadrava perfeitamente nas necessidades de estudantes, artistas plásticos e aspirantes a cineasta. Era possível sair da posição de espectador para a de realizador com uma câmera de pequeno porte e um cartucho de três minutos de duração. Não havia necessidade de uma equipe de filmagem, os rolos podiam ser comprados em óticas espalhadas pela cidade e o som podia ser gravado direto no próprio equipamento. O super-8, lançado em 1965 pela Eastman Kodak, se tornava na década de 1970 o cinema do possível no Brasil e passava a alimentar “um cinema surgido da necessidade de fazer cinema, num país onde o imperialismo econômico tem sido a pedra no sapato da nossa própria cultura” (SANTOS, 1982, p.33).

O texto jornalístico-poético de Torquato apresenta a característica de referência intermidiática apresentada por Rajewski (2012) em texto intitulado “A fronteira em discussão”. Essa classificação corresponderia à realização de uma referência feita sobre uma obra específica ou, como é o caso de Torquato, ao cinema de maneira geral. Torquato fala de planos gerais, close up, cinema, constrói a sua escrita com forte influência da linguagem cinematográfica e fica perceptível a fluidez com a qual ele se move por todos os meios.

Dessa maneira, pretende-se analisar nesta comunicação a relação intermidiática entre o trabalho jornalístico-poético de Torquato e a sua produção fílmica, como ator e realizador nos filmes “Terror da Vermelha”, filmado em 1972 por Torquato no Piauí e “Nosferato no Brasil”, dirigido por Ivan Cardoso no ano anterior, na cidade do Rio de Janeiro. Ainda que “Nosferato” tenha sido dirigido por Ivan Cardoso, não se pode apagar a influência de Torquato dentro da realização da obra. Por ser composto por vários momentos não lineares, o filme é repleto de happenings de Torquato – o vampiro – e das suas vítimas, permitindo que o ato de criação passasse por toda a equipe. Interessa aqui, portanto, observar de que maneira Torquato aplicou suas referências e ideias sobre o fazer cinematográfico, difundidas na coluna “Geléia Geral”, nestes filmes.
Bibliografia

MACHADO JÚNIOR, Rubens L. R. A Experimentação Cinematográfica Superoitista no Brasil: espontaneidade e ironia como resistência à modenização conservadora em tempos de ditadura. In: AMORIN, Lara; FALCONE, Fernando Trevas (orgs.). Cinema e Memória: O Super-8 na Paraíba nos anos 1970 e 1980. João Pessoa: Editora da UFPB, 2013.

NETO, Torquato. Os Últimos Dias de Paupéria. In: DUARTE, Ana Maria Silva de Araújo; SALOMÃO, Wally (orgs.) 2 Ed. São Paulo: Max Limonad Ltda., 1982.

RAJEWSKI, Irina. A fronteira em discussão: o status problemático das fronteiras midiáticas no debate contemporâneo sobre intermidialidade. In: DINIZ, Thais Flores Nogueira; VEIRA, André de (orgs). Intermidialidade e estudos interartes: desafios da arte contemporânea. Belo Horizonte: Rona Editora: FALE/UFMG, 2012.

SANTOS, Alex. Cinema e Revisionismo. Paraíba: Secretaria da Educação e Cultura, 1982.