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  Título
Narratividade e plano-sequência no cinema brasileiro comtemporâneo
Autor
GIAN FILIPE RODRIGUES ORSINI
Resumo Expandido
Os planos elaboradamente longos de Orson Welles em Cidadão Kane (1941) serviram como matéria-prima para as idéias de André Bazin, permitindo ao crítico desenvolver uma teoria sobre o plano-sequência. Para Bazin, devido ao desprendimento da utilização do corte na ação narrativa, o plano-sequência instauraria uma impressão mais natural na relação filme-espectador, sendo assim, juntamente com a profundidade de campo, o grande instrumento do realismo cinematográfico.

Ao comentar as teorias bazinianas sobre as noções de realismo no plano-sequência, Andrew(2002, p.133) disserta que “Orson Welles criou um realismo ontológico, dando aos objetos uma densidade e independência concretas; realismo dramático, recusando-se a separar o ator do cenário; e realismo psicológico, colocando o espectador nas verdadeiras condições de percepção nas quais nada é jamais determinado a priori”. Assim, a articulação narrativa em único plano sem a interferência do corte, por dispensar o processo de montagem e se desvencilhar da fragmentação do real, seria um recurso que respeitaria a realidade e a liberdade do espectador na sua relação entre o visível e o dizível.

No entanto, a realização de um filme inteiramente em plano-sequência foi, durante muito tempo, brecada por limitações técnicas. Nos anos quarenta, Alfred Hitchcock tentara tal façanha, sem obter sucesso técnico - mas sim, narrativo- em realizar Festim Diabólico, de 80 minutos. Leone e Mourão (1987, p.62) comentam que “essa experiência só foi possível por se tratar de uma ação num único espaço e num tempo delimitado, coincidente com o tempo de projeção, não havendo necessidade de elipses temporais”.

O contar em plano-sequência perturba o jogo do cinema clássico, constrói uma decupagem previamente no roteiro que, ao invés de criar relações espaço-temporais produzindo planos fílmicos, utiliza o recurso da mobilidade da câmera para acompanhar o desenrolar das ações. Uma busca na forma por outro tipo de narratividade. Como afirma Machado (p.62,2007), “no cinema clássico, a alternância dos pontos de vista determina uma intensa fragmentação da cena para multiplicar o olhar numa pluralidade de visões particulares”, assim, a não-fragmentação em pequenas unidades dramáticas e a não modulação de olhares de personagens e pontos de vista, faz o plano-sequência instaurar a presença de um olho que narra, mas que também parece se colocar em posição de testemunho. Uma complexa relação de ambivalência estatutária entre um plano que é olhar-narrador e olhar-espectador.

Hoje, graças à evolução dos recursos tecnológicos, da inventividade narrativa e de soluções cênicas e digitais, temos exemplos que nos apontam novos caminhos e desdobramentos do uso e realização de filmes inteiramente em um único plano-sequência. De Arca Russa(2002), passando por Ainda Oragotangos(2007), até os mais recentes Birdman(2014) e Victoria(2015), o recurso vem sendo explorado no limiar entre fetichismo e destreza técnica, mas também como desafio narrativo. No presente trabalho, nos inclinaremos sobre um recorte de quatro curtas-metragens brasileiros contemporâneos realizados em único plano contínuo: Disparos, Tarcísio Lara Puiati , RS, 2000; Outros, Gustavo Spolidoro, RS, 2000; A História da Eternidade, Camilo Cavalcante , PE, 2003; A última fábrica, Felipe Nepomuceno, RJ, 2005.

Nestes filmes, podemos observar a diversidade no emprego narrativo e da funcionalidade do uso desta figura de estilo: representando o estado psicológico de um personagem-focalizador; servindo como materialidade de registro histórico e evidência do real; ou comportando elipses através de outras ferramentas que demonstram que plano-sequência e cronologia não são fatores que estão obrigatoriamente interligados. Esta escolha não se dá apenas pela singularidade dos casos, mas pelo desejo de investigar a utilização do plano-sequência como estratégia narrativa, estilística e suas inevitáveis implicações na construção da relação entre o tempo e o espaço fílmico.
Bibliografia

ANDREW, Dudley. As Principais Teorias do Cinema: uma introdução. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2002.



AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. Dicionário teórico e crítico de cinema. Campinas: Papirus, 2003.



AUMONT, Jacques. A teoria dos cineastas. Campinas, SP: Papirus, 2004.



BAZIN, André. O cinema: ensaios. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.



Ibidem. Orson Welles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.



LEONE, Eduardo; MOURÃO, Maria Dora. Cinema e Montagem. São Paulo: Série princípios, Editora Ática, 1987.



MACHADO, Arlindo. O sujeito na tela: modos de enunciação no cinema e no ciberespaço. São Paulo: Paulus, 2007



RICOUER, Paul. Tempo e Narrativa: Tomo 1. Campinas: Papirus, 1994.