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  Título
Reflexividade: diálogos entre Pop Art e televisão no Brasil
Autor
Carla Simone Doyle Torres
Resumo Expandido
Ao longo de sua história, a televisão vem manifestando sintomas das condições sociais, políticas e culturais das sociedades em que se insere. A cada momento crítico, a materialização das crises se deu, em grande parte, pela expressão da reflexividade em suas produções. Por outro lado, a reflexividade se revigora também a cada período de crise do campo artístico, mas compreende-se que os períodos em que essa característica se mostrou mais evidente foram o do advento da Arte Moderna no fim do século 19 e, posteriormente, o do – não menos turbulento – início da Arte Contemporânea, no fim do século 20. A proposta deste estudo é compreender de que modo as reflexividades que permeiam os dois campos – o midiático, aqui representado pela televisão, e o artístico – se comunicam e até mesmo manifestam certa ambivalência de características. Para isto, parte-se da ponte entre a Pop Art e a televisão feita a partir das intervenções do artista estaduniense Andy Warho. Além de seu estúdio, a Factory, ele manteve o programa 15 Minutos de Fama na MTV na década de 1980.

No Brasil, temos inúmeros exemplos de produções de cunho reflexivo que, em nosso contexto, desafiaram os padrões estabelecidos pela Ditadura – entre 1964 e 1985 – para a produção artístico-cultural. Entre essas produções, temos Abertura, programa apresentado por Glauber Rocha e exibido pela TV Tupi entre 1979 e 1980; Ernesto Varela, o Repórter Atrapalhado, criação do coletivo Olhar Eletrônico em meados de 1984 e que tornou-se parte do programa Crig-Rá, veiculado pela TV Gazeta no mesmo ano. Mais tarde, após a abertura política, programas como TV Pirata e Dóris para Maiores, ambos veiculados pela Rede Globo durante a década de 1980, garantiram uma sequência à aura reflexiva e (auto)problematizante lançada por seus antecessores. Ao longo da primeira década dos anos 2000, do espírito questionador e problematizador de si e do mundo, que deu a tônica a produções como aquelas, restou o aprendizado da técnica, que permeou programas que mostraram um grande domínio dos modos de aludir a si mesmos e aos modos de produção, mas não necessariamente problematizar-se ou problematizar o seu entorno. Adentramos em uma época em que – de modo geral – tudo passava a ser tecnicamente melhor e esteticamente mais apurado, em detrimento de uma efetiva crítica aos âmbitos social, econômico, cultural e político.

Com esta pesquisa, procura-se aprofundar os resultados já alcançados pela tese, intitulada Por uma estética televisiva: um olhar sobre a reflexividade em programas brasileiros, apresentada em março de 2016 ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS. Naquele trabalho, ao tomar como objeto programas brasileiros produzidos entre as décadas de 1980 e 2000, observou-se como se configuram audiovisualmente os modos de expressão dos processos reflexivos – Métiers e Técnicas, Atualidades e Bastidores, Passado e Promoção de Programas e de Canais e como eles ganham materialidade por meio de características como plasticidade, morfologia, sons, modos de apresentação e intermidialidade. Em meio a essas análises, na observância de traços estéticos frequentes da Pop Art nas produções brasileiras estudadas, objetiva-se verificar mais clara e profundamente como se dá essa relação/ligação estética e o que dela resiste ou o que ela lega às produções reflexivas brasileiras atuais, a exemplo do Programa Tá no Ar: A TV na TV, veiculado pela Rede Globo desde 2015.
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