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  Título
Comum com os bichos: conversa com idiotas em As quatro voltas
Autor
Luís Fernando Lira Barros Correia de Moura
Resumo Expandido
No momento em que a filosofia política (Latour, Stengers) reivindica a expansão dos parlamentos a agências não humanas e a construção pragmática de novas figuras de comunidade, perguntamos se e como o cinema seria capaz de, aos seus modos de produção do sensível, colaborar com este projeto de invenção.

Por um lado, a palavra dita em cena estabelece uma hierarquia de percepção de um espectador das imagens (Chion), ao mesmo tempo que reconfigura em ato a cena política (Comolli). Por outro, não só a palavra falta àqueles que chamamos “animais” mas, como podemos dizer com Lewis Henry Morgan, a característica primordial que os diferencia dos humanos é justo a mudez (e o antropólogo preferiu portanto lhes chamar não de “animais”, mas de “mudos”). Diante do mistério de outros de espécie, sabemos que não são capazes de (ou não querem) se comunicar por meio da palavra, e no entanto algo nestes “completamente outros” (Derrida) nos desconcerta. Se não devolvem palavras, como fazem os humanos, distinguem-se também dos outros objetos ao nosso olhar, por meio da especificidade da “presença” (Lestel) – que nos franqueia o sentido de “uma força vívida, móvel, imprevisível e dotada de finalidade”.

Como sustenta Vinciane Despret, são como “parceiros estranhos” (Lyotard): suas ações muitas vezes nos parecem despropositadas, e no entanto compartilhamos, com eles, um mundo. Perante seus corpos, podemos enquadrá-los desde já aos “moldes narrativos” de nossas epistemologias prévias (ou, como diz Derrida, dar a eles, violentamente, nomes) ou empreender em lhes dirigir “as perguntas certas”, suspeitando dos nomes postos de antemão. A autora propõe que persigamos os possíveis de uma “reciprocidade pragmática” mediante a qual se atam novos “laços”, justos às demandas singulares das situações de encontro. Como se narrativas para se fazer com os afetos positivos dos “idiotas”, no sentido caracterizado por Isabelle Stengers. Se, na Grécia Antiga, os idiotas eram aqueles que, sem falar o idioma, eram “apartados da comunidade civilizada”, na formulação deleuziana são “aqueles que sempre desaceleram os outros”. São “uma presença” e “produzem um interstício”. Lançam portanto um desafio produtivo às cosmopolíticas emergentes, aos modos de uma demanda por “hesitação” que faz ela mesma o ambiente da nova política. A hesitação consiste em desacelerar a iluminação das deliberações para que se possa deixar a arena política se povoar “por sombras daqueles que não têm, não podem ter ou não querem ter uma voz política” (Stengers).

As quatro voltas (Michelangelo Frammartino, 2010) parece ofertar à fábula figuras inventivas de comunidade híbrida (Lestel), partindo de um gesto virtuoso de ficção que, instaurado, dispõe-se a se “defasar por dentro” (Brenez) diante das presenças dos bichos: uma vez que se esboçam narrativas – prescrições – para corpos de diferentes substâncias, humano e não humanos, planos aparentemente solitários promovem uma deambulação da narrativa para um afeto intensivo, propriamente cinemático, de um corpo inscrito, cujo itinerário coreográfico transborda ao encadeamento do telos. Ora por figurações do ordinário (gesto menor da ficção), ora do extraordinário (gesto ostensivo da ficção), alarga-se a experiência diante de afecções dos bichos e reconfigura-se na fábula a representação inconclusa dos desvios.

Nossa hipótese central, em diálogo com os autores citados, é a de que esta defasagem deve a estratégias de encenação da voz humana. Uma vez que As quatro voltas abre mão dos artifícios de realce que costumam destacar a voz nas cenas de cinema (Chion), recolhe sua vocação significante e devolve-a à materialidade das vibrações do mundo. Produz, assim, efeitos de surdez (Chion) ao espectador humano, por meio de uma pragmática da audição que persegue uma mise en égalité (Stengers) das distâncias em cena. O filme aposta, afinal, na oferta de uma fábula cosmopolítica que se abre diante de afetos cruzados em meio à dança muda dos corpos.
Bibliografia

BRENEZ, Nicole. “Um fotograma de Índia: Matri Bhumi, Roberto Rossellini, 1959” In: Devires: Cinema e Humanidades, Belo Horizonte, v. 11, n. 2, p. 180-193, jul./dez. 2014.

CHION, Michel. The voice in cinema. Nova York: Columbia University Press, 1999.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

DERRIDA, Jacques. O animal que logo sou. São Paulo: UNESP, 2002.

DESPRET, Vinciane. Que diraient les animaux si... In: CADRE DES GRANDES CONFÉRENCES LIÉGEOISES. 17 jan. 2013.

INGOLD, Tim. The animal in the study of humanity. In: INGOLD, Tim (Org.). What is an animal? Londres: Routledge, 1988.

LESTEL, Dominique. A animalidade, o humano e as “comunidades híbridas”. In: MACIEL, Maria Esther (Org.). Pensar/escrever o animal: ensaios de zoopoética e biopolítica. Florianópolis: UFSC, 2011.

STENGERS, Isabelle. The cosmopolitical proposal. In: LATOUR, Bruno; WEIBEL, Peter. Making things public: atmospheres of democracy. Cambridge: MIT Press, 2005.