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  Título
Helena Solberg: Da militância feminista ao documentário contemporâneo
Autor
Mariana Ribeiro da Silva Tavares
Resumo Expandido
A cineasta brasileira Helena Solberg tem uma trajetória coerente que parte de questões pessoais para tentar compreender, num primeiro momento, sua identidade enquanto mulher e a decisão entre seguir uma carreira profissional e a vida familiar, questionamento que conduz à realização de seu primeiro filme, o documentário em curta-metragem, A Entrevista, 1966. Depois, sua condição de mulher latino-americana, vivendo e trabalhando nos Estados Unidos, onde permanece por 32 anos. Essa questão se estende para a condição das mulheres latino-americanas no espaço doméstico e no trabalho e a cineasta viaja à América Latina a fim de conhecer a realidade da mulher na região. Essas inquietações levam, na década de 1970 – auge do movimento feminista no mundo –, à uma série de filmes pioneiros sobre temática feminista que denominamos Trilogia da Mulher.

O cinema de Solberg nasce moderno, uma vez que A Entrevista, 1966, apresenta elementos estilísticos que rompem com a tradição do documentário clássico e estabelece, em sua linguagem, oposição de significados entre as imagens e os sons, elipses temporais, ausência de narração em off, ausência de entrevistas com som, uso da ficção e da reflexividade. Mesmo inserida no contexto do Cinema Novo, a cineasta apresenta, nesse filme, características singulares que conformam seu universo de criação.

As investigações sobre a condição das mulheres se estendem para as relações políticas entre os Estados Unidos e a América Latina na década de 1980. Identificamos esta Fase Política que compreende seis documentários que foram exibidos em Rede Nacional de Televisão nos Estados Unidos, pela Public Broadcasting Service (Serviço Público de Teledifusão) (PBS): Nicarágua Hoje (1982); Chile, pela razão ou pela força (1983); A Conexão Brasileira, A luta pela democracia (1982-1983); Retrato de Um Terrorista (1985); Berço dos Bravos (1986) e A Terra Proibida (1990).

No contexto da realidade de produção dos documentaristas latino-americanos, a cineasta teve, nas décadas de 1970/1980, posição privilegiada, com liberdade e condições de filmar difíceis de encontrar entre os cineastas brasileiros e latinos que permaneceram na região. A temática recorrente nessa fase política que questionava as ditaduras e lançava luz na capacidade de mobilização dos civis e grupos políticos (marcas do Cinema Militante), bem como o papel do governo norte-americano na implantação e sustentação desses governos, eram temas polêmicos que dificilmente poderiam ser abordados com transparência, pelos colegas latinos.

O amadurecimento do olhar de Helena Solberg nas três décadas em que viveu nos Estados Unidos contribuiu para a conformação de um olhar estrangeiro, com perspectiva muito particular. Como ela bem definiu no depoimento à Julianne Burton, um olhar “de dentro” da América Latina para os norte-americanos e para a comunidade latino-americana radicada nos EUA – e poderíamos acrescentar, também, um olhar “de fora” da América Latina. É nessa dialética que está a riqueza de seu cinema, que não se contenta só com um ponto de vista.

Na fase atual, depois de todo o percurso político e social pela América Latina e suas relações com os Estados Unidos, a cineasta retoma sua formação inicial – Helena Solberg cursou Línguas Neolatinas na PUC do Rio de Janeiro, ao final da década de 1950 – e volta a viver e a trabalhar no Brasil. Em seus longas-metragens recentes (seja na ficção ou no documentário), Solberg coloca, em primeiro plano, a expressão artística brasileira em suas várias manifestações – literatura, música, poesia, teatro e dança – sem perder de vista o contexto político, econômico e social.

Esta trajetória será abordada visando demonstrar que o estilo e os temas da cineasta se fazem presentes desde os primeiros filmes. A predileção pelas personagens femininas em confronto à realidade social, política e econômica no continente americano conformam uma trajetória única e coerente.
Bibliografia

Bernadet, Jean-Claude. 2003. Cineastas e imagens do povo, São Paulo: Companhia das Letras.



Burton, Julianne. 1986. Helena Solberg-Ladd, Cinema and Social Change in Latin America. Austin Texas: University of Texas Press.



DA-RIN, Sílvio Pirôpo. 2004. Espelho partido: tradição e transformação no documentário. Rio de Janeiro: Azougue.



Nichols, Bill. 2005. Introdução ao documentário. Traduzido do inglês por Mônica Saddy Martins. Campinas, SP: Papirus.

Penafria, Manuela.1999. O filme documentário: história, identidade, tecnologia, Lisboa: Cosmos.



Ramos, Fernão Pessoa. 2008. Mas afinal... O que é mesmo documentário? São Paulo: Senac.



Tavares, Mariana. 2014. Helena Solberg: do Cinema Novo ao Documentário Contemporâneo, São Paulo: Imprensa Oficial SP.