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  Título
O Homem Sem Sombra: Um Pacto Demoníaco do Conto para a Animação
Autor
Adriano Carvalho Araújo e Sousa
Resumo Expandido
L’Homme sans ombre é considerado como uma tradução no sentido de tentar recriar as principais questões de um correlato fáustico, o conto de Adelbert Von Chamisso. Para traduzi-lo, procura trazer “propriedades sonoras [e] de imagética visual” (CAMPOS, 1992), ou seja, os elementos que fazem a complexidade do conto que lhe dá origem, para além do entrecho.

No conto, Peter Schlemihl conhece o homem em traje cinza, este lhe oferece a bolsa de Fortunatus, bolsa que contém dinheiro inextinguível, em troca de sua sombra. O protagonista logo descobre as desvantagens dessa privação e, após recusar uma oferta do mesmo homem enigmático para reaver a sombra em troca de sua alma, passa a vagar pelo mundo em busca de paz de espírito: travessia de quem carrega consigo, a exemplo do Judeu Errante, citado no conto de Chamisso (1992, p. 17), a maldição através dos tempos, em uma reverberação de Ahasverus (PIRES FERREIRA: 2000).

Do ponto de vista da linguagem, Schwizgebel dialoga com a pintura. O conto é uma narrativa tenebrosa, de uma “oposição brusca, quase patológica, entre a delicadeza silfídica dessa parte da produção de Chamisso e, pelo outro lado, uma busca verdadeira por temas violentos, até mesmo macabros” (MANN: 2003, p. 141-142).

A animação se insere nesse “tecido fáustico [...] que funciona à maneira de hipertexto [...] criando articulações” (PIRES FERREIRA, 2010, p. 313) com um trabalho com as cores que não segue a ordem natural do conto, o “Homem de cinza”, aquele que oferece a bolsa de Fortunatus, aparece em trajes vermelhos, por exemplo. Cinzenta é a vida do próprio protagonista, na escolha de Schwizgebel. Partindo do princípio de que se trata de uma versão voltada para o público jovem, proponho pensar uma mobilização do espectador que se dá através da palheta do animador, seu trabalho de fusão das imagens em um teatro de sombras.
Bibliografia

CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem e Outras Metas. 4ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.

CHAMISSO, Adelbert Von. L’Étrange histoire de Peter Schlemihl. Paris: Folio, 1992.

______. A História Maravilhosa de Peter Schlemihl. 2 ed. Posfácio de Thomas Mann. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.

FRENZEL, Elizabeth. Diccionario de Argumentos de Literatura. Madrid: Gredos, 1976.

JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 7ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

PIRES FERREIRA, Jerusa. Fausto no Horizonte. São Paulo: Hucitec / Educ, 1996.

______. Fausto no Horizonte Latino-americano. In: GALLE, Helmut; MAZZARI, Marcus (orgs.). Fausto e a América Latina. São Paulo: Humanitas / Fapesp, 2010.

______. O Judeu Errante: A Materialidade da Lenda. Olhar, a. 2, n. 3, jun. 2000.