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  Título
O mosaico de contradições em Annie Hall
Autor
Ana Paula Bianconcini Anjos
Resumo Expandido
Certamente uma das cenas mais comentadas do cinema de Woody Allen é o momento em que Alvy Singer (personagem interpretado pelo próprio cineasta) discute na fila do cinema com um professor da Universidade de Columbia e acaba convocando Marshall McLuhan para “ajudá-lo” a derrotar o pedante. Após a cena de pugilismo cômico pseudo-intelectual, o casal Alvy e Annie, ao invés de assistir ao filme "Face a Face", de Ingmar Bergman, vê "A Dor e a Piedade", de Marcel Ophüls. Nesse sentido, cabe perguntar qual seria a relação entre o documentário de Ophüls e o filme de Allen? E além disso, no contexto atual de ascensão da extrema direita na Europa, nos EUA (e no Brasil) é necessário retomar "A Dor e a Piedade" e o cenário político de "Annie Hall".

Os personagens Alvy e Annie são ícones da onda do empreendedorismo urbano, processo mapeado pelo filme é o da transformação do casal em marca do sucesso corporativo da cidade, com a vestimenta da contracultura. O figurino de Diane Keaton, criado por ela mesma para o filme, o terno e a gravata desalinhados, virou sinônimo do uniforme cult nos escritórios de negócios das transnacionais. O filme de 1977 trata da ascensão da mulher corporativa, figura feminina que será retomada ao longo da carreira de Allen. Esse processo de transformação de Annie Hall em mulher-empresa (por meio do “cultivo” intelectual, patrocinado por Alvy, que paga não apenas pelas sessões de terapia da namorada, como também por cursos universitários e, por fim, presenteia-a com um relógio, símbolo, por excelência, do controle do tempo do trabalho) relaciona-se no filme de Allen com o documentário de Ophüls, "Crônica de uma cidade francesa durante a ocupação" nazista. A forma do filme "Annie Hall" guarda semelhanças com a do documentário de Ophüls por adotar uma estrutura narrativa que estabelece-se por meio de um “mosaico de contradições.” Esse método, que será retomado no período exílico de Woody Allen, compõe-se por meio da incorporação de referências exteriores.

Em "Annie Hall", o documentário de Ophüls é retomado em três momentos centrais da narrativa, que analisaremos ao longo da comunicação. Ao comentar "A Dor e a Piedade" com Annie, Alvy tem um flashback de sua participação na campanha de Adlai Stevenson, candidato nas primárias do partido Democrata à presidência dos EUA, derrotado por John F. Kennedy, em 1960. Ao incluir o personagem Alvy Singer na campanha de Stevenson, Allen busca entender a colaboração dos artistas na história política recente dos EUA. Nesse sentido, será importante ressaltar as semelhanças entre o personagem Alvy Singer e o comediante stand-up Mort Sahl, considerado como o precursor da sátira política nos Estados Unidos e frequentemente citado por Allen como o maior mestre da comédia stand-up. O comediante pode ser considerado como um dos “profissionais de Kennedy,” tendo em vista que ele trabalhou para o candidato durante a campanha, redigindo muitos de seus discursos. A participação de Sahl na campanha de JFK é tão intensa, e controversa, que ele chega a ser, em um mesmo evento, mestre de cerimônias e autor dos discursos de JFK e Frank Sinatra. A obsessão de Alvy com o assassinato de Kennedy, ocorrido em 1963, aproxima-o de Sahl, tendo em vista que o comediante participou das investigações do assassinato do presidente americano. Nesse sentido, é preciso entender a figura controversa e difícil de Sahl como parte integrante do clube dos “profissionais de Kennedy.” Apesar da sagacidade da interpretação do cenário político norte-americano, o narcisismo de Sahl impede-o de fazer sua autocrítica. É justamente por meio do papel estruturante da autocrítica no cinema de Allen que ele diferencia-se de seu mestre, Mort Sahl, compondo, à maneira de Marcel Ophüls, um mosaico de contradições a respeito do próprio personagem interpretado por Woody Allen.
Bibliografia

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