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  Título
Documentários políticos contemporâneos: estéticas para a história
Autor
Alexandre Curtiss Alvarenga
Resumo Expandido
A criação da Comissão Nacional da Verdade, em 2012, acentuou uma tendência de resgate de fatos da nossa história recente. Surgiram diversas ações destinadas à montagem de um banco de dados a recompor uma memória sobre casos de violação de direitos políticos no período da ditadura militar no Brasil. Parte desse trabalho tem sido feito através de documentários.

As particularidades dos filmes que abordam o mundo em que vivemos, em contraposição aos que o fazem sobre “um” mundo imaginado, não conseguem eludir a questão crucial de ser “linguagem”. Assim, documentários acabam possuindo suposições sobre seus objetivos, criam relações entre o cineasta e seu tema e inspiram expectativas no público, que são, no geral, aproximáveis, possibilitando a que sejam nomeados, em conjunto, genericamente como tais. Dentro de limites autoassumidos, por lealdade a modos e posicionamentos produtivos específicos, recriam possibilidades diversificadas de serem documentários, muitas vezes delimitadas por estilos, situações, intenções, épocas e valores constituintes do imaginário predominante nos contextos concretos em que são realizados.

No Brasil, o lento processo político de saída da ditadura, no final dos anos 70, teve seus intérpretes documentaristas em Silvio Tendler, Orlando Senna, Jorge Bodanzky, Renato Tapajós, León Hirzman. Na metade da década de 90, à produção incessante de Eduardo Coutinho, João Moreira Salles, se junta uma geração de novos cineastas como Guilherme Coelho, Jorge Furtado, Maria Augusta Ramos, João Jardim. Em uma década o documentário se projetou como opção cinematográfica, que até tem na televisão um canal frequente de exibição.

Um contexto histórico de democratização constante viu incrementar a produção de documentários políticos. As obras que surgiram abordam o tema a partir de perspectivas estéticas as mais diversas. O uso de imagens de arquivo tornou-se recurso formal recorrente, a memória, o resgate do passado, através de depoimentos e entrevistas, ocupa um lugar central nesse tipo de proposta. Percebe-se um deslocamento necessário: o fato histórico não se encontra mais disponível como fato bruto, mas como narrativa, como subjetividade objetivada. E será ela que se torna material fílmico primordial. As memórias se apresentam alinhavadas pela pesquisa em arquivos, e na soma refazem um período da história, (re)criam contextos, geram outras perspectivas de compreensão dos fatos passados. Mas também incitam questões: seria a dimensão subjetiva um elemento capaz de criar as condições para o entrelaçamento entre história e memória nessas obras? Quais as vozes centrais nesses documentários? Quais os sujeitos catalisadores de um discurso que lança esse outro olhar sobre o referido período da história?

Debruçar-se sobre obras documentárias concretas representa um momento necessário para o confronto com o conhecimento. Optamos por certas limitações, certamente arbitrárias. Em termos temáticos, o documentário político; em termos históricos, o documentário contemporâneo; por fim, em termos geográficos, casos brasileiros e portugueses.

Pretendemos abordar dois documentários brasileiros recentes e o mesmo número de casos portugueses. Filmes cuja estrutura narrativa articula documentos e imagens de arquivo com depoimentos de pessoas que foram presas ou testemunhas vivas da história. A memória ocupa um lugar central, numa constante convergência entre história e memória a compor registros. Analisar-se-á, também, a dimensão estética das obras. O material será analisado com base nas teorias contemporâneas sobre documentários, interpelando as possibilidades desses filmes – e da realidade representada -, evidenciando posições históricas, imaginário e intencionalidades constituintes das condições de produção das obras. Espera-se conseguir estabelecer vínculos entre reflexão audiovisual, discurso estético e ação política: o documentário enquanto “prática social”.
Bibliografia

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