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  Título
A “cativa” no cinema e na literatura argentina
Autor
Maria Celina Ibazeta
Resumo Expandido
A literatura argentina do começo do século XIX experimentou as mesmas tensões entre centro (Buenos Aires) e interior (as províncias) que afetavam a vida política da jovem nação. A falta de acordo entre os dois lados em questão se explica, em parte, pela não inclusão no projeto político centralista dos grupos populares (gaúchos, índios, negros), que tinham lutado na guerra de independência contra a Espanha, e se sentiram traídos após o triunfo. Estes grupos viam apenas uma substituição da elite político-econômica, dos espanhóis pelos criolos (filhos de espanhóis nascidos na América), e não uma verdadeira mudança do sistema político como um todo.



Foi nesse contexto que se escreveu o celebrado ensaio Facundo (1845) de Domingo Faustino Sarmiento, intelectual e político centralista, que imortalizaria a famosa frase: “civilização ou barbárie”. A construção dos grupos populares como selvagens e violentos, incapazes para se organizar e governar, feita pelos intelectuais centralistas, se serviu de uma figura icônica para atingir este objetivo: a cativa. O famoso poema La cautiva (1937) de Esteban Echeverría descreve a história da mulher jovem branca raptada e mantida como prisioneira por um grupo de índios descritos como bestas. Mas de um século depois, o conto de Jorge Luis Borges Historia del guerrero y la cautiva (1949), que se inclui no seu livro El Aleph, também incorporou esta personagem feminina, a cativa inglesa, para mostrar seu fascínio pela barbárie em oposição ao fascínio do bárbaro guerreiro pela civilização, em um típico jogo de espelhos. Anos mais tarde, César Aira traz uma cativa moderna que parodia a tradição literária, ao mesmo tempo que a celebra, no seu romance Ema, la cautiva (1981).



A história real de Gerónima Sande, mulher mapuche, pobre, mãe de quatro filhos, internada e mantida contra sua vontade por dois meses em um hospital de Río Negro, junto a sua familia, em agosto de 1976, é o argumento do livro Gerónima (1982) de Jorge Pellegrini e do filme Gerónima (1986) de Raúl Alberto Tosso, inspirado no livro. Pellegrini, médico psiquiatra, entrevistou a Gerónima durante sua estadia no hospital e em seu livro transcreve algumas das suas conversas e reflete sobre a drástica mudança de habitat que levou a Gerónima e três de seus filhos à morte. Tosso reconstrói a historia usando as gravações de Pellegrini como fio condutor da trama. Ambas obras evidenciam a história de violência contra às mulheres índias pelos brancos.



Este trabalho compara a construção e a transformação da figura da cativa nas obras literárias e cinematográfica. Esta revisão histórica pretende explicar porque se perpetuou na literatura a figura da mulher branca prisioneira dos índios, e de que forma o cinema traz o reverso deste patrão, a mulher índia em poder dos brancos.
Bibliografia

LUSNICH, Laura. Civilización y barbarie en el cine argentino y latinoamericano. Buenos Aires: Biblos, 2005.



LUSNICH, Laura, PIEDRAS, Pablo (orgs). Una historia del cine político y social en Argentina (1969-2009).Buenos Aires, Nueva Librería, 2011.



RODRÍGUEZ, Alejandra. Historia, pueblos originários y frontera en el cine nacional. Bernal: Universidad de Quilmes, 2015.



RODRÍGUEZ, Fermín. Un desierto para la nación. La escritura del vacío. Buenos Aires: Eterna Cadencia, 2010.