Voltar para a lista
 
  Título
Caminhos de convergência: política e resistência no cinema Huni Kuin
Autor
Karliane Macedo Nunes
Resumo Expandido
Indissociável de sua dimensão pragmática, o cinema indígena produzido no Brasil nos últimos anos tem se configurado como uma prática cultural e interétnica no qual o processo de realização dos filmes e o cotidiano das comunidades envolvidas imbricam-se mutuamente. O caráter de produção partilhada (uma vez que o filme existe a partir de uma rede formada por índios e não índios) possibilita uma série de diálogos, fazendo do cinema indígena um espaço híbrido, articulador de uma multiplicidade de vozes, que coloca em relação diferentes sujeitos e pontos de vista.



Fazendo dos filmes instrumento de mediação, os cineastas indígenas assumem posições de sujeito, promovem deslocamentos de saberes e poderes e inserem-se no jogo da “cultura” (cultura com aspas), expressão cunhada por Manuela Carneiro da Cunha (2010), que diz respeito à relação reflexiva que os indígenas fazem de suas culturas. Ruben Queiroz (2008), Cézar Migliorin (2013) e André Brasil (2013) são alguns pesquisadores que vem abordando o cinema indígena enquanto uma manifestação da “cultura”, uma vez que o processo de elaboração do filme exige, a todo tempo, que os indígenas selecionem e negociem – não sem tensão - elementos da cultura metropolitana (definições antropológicas de cultura) no momento mesmo de performar e citar reflexivamente a própria cultura. (BRASIL, 2013, p. 248)



Enquanto produto cultural híbrido e como ferramenta pedagógica (com atuação dentro e fora das aldeias), alguns dos filmes produzidos no âmbito da ONG Vídeo nas Aldeias, apontam para convergências que envolvem a educação e a produção de narrativas históricas, destacando uma dimensão política, que inclui também a luta por direitos e a possibilidade de o registro atuar como um modo de preservação da “tradição” para as futuras gerações.



No entanto, tem ganhado destaque o modo criativo como os realizadores indígenas, ao enfatizar a dimensão mediata, fazem dos filmes um espaço híbrido, uma rica manifestação das dinâmicas de encontro (étnicos, discursivos, de temporalidades), que coloca em relação imagens de dentro e de fora, passadas e atuais, num movimento de reelaboração permanente, fazendo do filme não apenas uma oportunidade de registro, mas, sobretudo, um momento de constituição de acontecimentos.



O cinema indígena opera por adição: abriga as tecnologias e as categorias do cinema para reelaborá-las em suas práticas, fazendo desse lugar de convergência a sua potência. Portanto, muito mais do que preservar tradições e originar arquivos, os filmes quase sempre são eventos que produzem efeitos nas vidas das pessoas envolvidas. Aspectos marcantes das culturas indígenas (oralidade, protagonismo do corpo, rituais, músicas, dentre outros) são potencializados pela ferramenta audiovisual, e o filme torna-se um forte convite de aproximação aos modos de vida indígenas.



Tais convergências expressam-se nos filmes de diferentes maneiras. O objetivo desta comunicação é discutir as estratégias enunciativas que enfatizam esse caráter de encontro e hibridismo na filmografia do povo Huni Kuin, habitante da Amazônia (no Acre e no Peru), a partir dos filmes Os cantos do cipó (2006), de Josias Maná Kaxinawá e Tadeu Siã Kaxinawá) e Já me transformei em imagem (2008), de Zezinho Yube. São filmes que me parecem particularmente interessantes por se dedicarem ao tema da produção de imagens e de sons, mobilizando imagens de arquivo e registros da etnografia, colocando-os em diálogo com suas memórias, pontos de vista, demandas e desejos, e criando novas imagens e sons. Desse modo, pode-se articular algumas questões proeminentes do cinema na atualidade, como os hibridismos, os encontros (de brancos e índios, corpos e tecnologias, performance e cotidiano, mito e história), o cinema como catalisador da cultura, como espaço de resistência, ação e transformação.
Bibliografia

BRASIL, André. Mise-en-abyme da cultura: a exposição do “antecampo” em Pi’õnhitsi e Mokoi Tekoá Petei Jeguatá. Significação. v. 40, n. 40, 2013.

CARELLI, Vincent. Vídeo e diálogo cultural: experiências do projeto Vídeo nas Aldeias. Horizontes Antropológicos, (2), Antropologia Visual, PPGAS/UFRGS, 1995.

CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. “ ‘Cultura’ cultura: conhecimentos tradicionais e direitos intelectuais”. In: CARNEIRO DA CUNHA, M. Cultura com aspas. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

MIGLIORIN, Cezar. Território e virtualidade. Quando a “cultura” retorna no cinema. In: Revista Famecos. Mídia, cultura e tecnologia. Porto Alegre, vol. 20, n.2, maio/agosto 2013.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas Canibais. São Paulo: Casac Naify, 2015.

QUEIROZ, Ruben C. Cineastas indígenas e pensamento selvagem. Revista Devires. Cinema e humanidades. V. 5 n. 2 Jul/Dez. UFMG, Belo Horizonte, 2008.