Voltar para a lista
 
  Título
ÉRIC ROHMER: FILMES E TEORIA
Autor
Alexandre Rafael Garcia
Resumo Expandido
Éric Rohmer foi um cineasta francês ativo entre 1959 e 2010, ano de sua morte. Ele lançou 23 longas-metragens, sendo boa parte de seus filmes agrupados em três ciclos: “Contos morais”, “Comédias e provérbios” e “Contos das quatro estações”.



Antes de se notabilizar como diretor, Rohmer consolidou seu nome como crítico de cinema nas páginas da revista “Cahiers du cinéma”, para a qual escreveu de 1951 a 1963, tendo sido editor-chefe entre 1958 e 1963.



No final da década de 1960, Rohmer se consagra como cineasta com seus “Contos morais”. Tais obras possuem uma abordagem estética realista do espaço, da trama e das atuações, além valorizar a eloquência dos personagens. Todos filmes são concentrados nas questões morais e nas relações sentimentais dos personagens, evidenciando um cinema objetivo e transparente.



Rohmer deixou como legado teórico (1) seus filmes produzidos; (2) textos na revista “Cahiers du cinéma” e em outras publicações relacionadas; (3) depoimentos e entrevistas sobre a sua produção cinematográfica; (4) uma tese de doutorado, publicado como livro em 1977, sobre o filme “Fausto”, de F.W. Murnau; (5) um romance, “Élisabeth”, publicado em 1946; (6) um livro sobre música, “Ensaio sobre a noção de profundidade na música: Mozart em Beethoven”, publicado em 1996; (7) as peças teatrais “La Petite Catherine de Heilbron”, adaptada de Heinrich von Kleist, que dirigiu em 1979, e “Trio en mi-bémol”, que escreveu e dirigiu em 1987.



Toda essa produção de Rohmer em diferentes meios de expressão dialoga intelectual e esteticamente com os seus filmes, que são objetos de análise principal nesta apresentação. A partir destas obras, é possível apontar questões fundamentais e gerais no cinema de Éric Rohmer:

1. Temas: todos os filmes tratam de relações interpessoais. Os dilemas dos personagens partem das relações deles com os outros, envolvendo questões amorosas e morais.

2. Ausência de grandes artifícios dramáticos: acidentes físicos, mortes, surpresas e reviravoltas narrativas são evitadas. O drama se dá pela relação direta entre os personagens.

3. Realismo. As atuações são esteticamente próximas à realidade, com personagens lidando com seus problemas a partir da negociação verbal, em situações aparentemente banais. Tudo isso é mostrado em ambientes cotidianos, seja na capital Paris ou em cidades do interior ou no litoral francês. Estes cenários são apresentados de maneira realista, se aproveitando das locações reais e de figurantes que são transeuntes reais.

4. Narrativa ficcional. A aparente “naturalidade” estética é fruto de rigorosa dedicação ao trabalho da escrita dramatúrgica ficcional – o roteiro –, especialmente pensado para as condições técnicas possíveis.

5. Loquacidade dos personagens. Rohmer pode ser considerado um dos poucos “cineastas da palavra”, por investir sobremaneira nas minúcias da fala dos seus personagens, que são eloquentes e possuem grande prazer em embates verbais.

6. Baixo orçamento e pequenas equipes. Rohmer concilia uma limitação financeira e técnica com sua abordagem estética, trabalhando com poucos recursos financeiros, pequenas equipes e poucos equipamentos. Assim, o diretor mantém-se ativo, produzindo ininterruptamente, mesmo sem grandes sucessos de públicos e crítica.

7. Intimidade com equipe. O diretor sempre que possível repete sua equipe técnica (fotografia, montagem, produção) e muitas vezes trabalha com os mesmos atores, criando uma intimidade exemplar, se assemelhando a um “grupo teatral”.

8. Relação com outras artes. Literatura, teatro, pintura, música e dança são temas recorrentes nos filmes de Rohmer, seja pela própria interação dos personagens ou por questões meta-estéticas – como determinadas obras que são citadas esteticamente dentro dos filmes.



Esta apresentação propõe uma abordagem aprofundada de cada um destes pontos, a partir de exemplos teóricos (textos, falas) de Rohmer e de seus filmes.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. A Teoria dos cineastas. Campinas, SP: Papirus, 2004.

BORDWELL, David. “Figuras traçadas na luz”. Campinas: Papirus, 2008.

CARDULLO, Bert (Org). Interviews with Eric Rohmer. Londres: Chaplin Books, 2012.

CRISP, Colin. “Eric Rohmer: Realist and Moralist”. Bloomington: Indiana University Press, 1988.

HANDYSIDE, Fiona (Org). Eric Rohmer: Interviews. Jackson: University Press of Mississipi, 2012.

LEIGH, Jacob. “The Cinema of Eric Rohmer: Irony, Imagination, and the Social World”. New York: Continuum, 2012.

ROHMER, Éric. “Elisabeth”. Madrid: 2007.

ROHMER, Éric. “Ensaio sobre a noção de profundidade na música”. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

ROHMER, Éric. “L’organisation de l’espace dans le Faust de Murnau”. Paris: Union Générale d’Editions, 1977.

ROHMER, Éric. “Le Goût de la beauté”. Paris: Flammarion, 1989.

ROHMER, Eric. The taste for beauty. New York: Cambridge University Press, 1989.

SCHILLING, Derek. “Eric Rohmer”. Manchester: Manchester University Press, 2007.